Talvez
eu fosse o primeiro a notar que o mundo já não era mais o mesmo. Quiçá toda a
tristeza transformara-se em alegria e nenhuma lágrima, mais, seria derramada.
Considerando toda a deformação da beleza qual um dia fora minha – nossa – eu realmente
deveria ter matado alguém, ou cometido suicídio.
Sempre
adorei prosa e poesia surrealista, não há muitas coisas neste mundo real –
anti-romântico – que são tão reais quanto o reflexo, perturbado pelas
ondulações. Meu quarto é pequeno e simples, então eu prefiro sair dele, como
faço agora. Desço as escadas, o agradável odor de tinta, o cheiro molhado,
úmido, sujo, a sensação de poluição visual-sonora – macia e doce sinestesia,
como uma escova de rocha.
Lá
estava ele, um corpo forte com musculatura definida, fedendo abominavelmente,
roupas desgastadas e sujas, fitando-a – minha progenitora – sensualmente ela
dançava e deslizava as mãos por aquele corpo bruto e esteticamente apreciável,
porém feio, brutalizado, maculado pelo acordo dos “belos corpos”. Beleza é como
uma merda que aponta para o céu: há de se ver algo artístico nela, sem sombra
de dúvidas.
A lascívia
daquele momento exalava permanentemente – como disse: permanentemente, para
nunca mais sair dali... De lá... Minha infante memória afogou-se na tristeza
dos olhos dos culpados e encarregou-se de trazer os anjos da morte à vida – a pornografia
daquele momento exalava permanentemente, a violência da traição.
Terminei
de descer os degraus, Claudius tentou me impedir, mas já sabia que era tarde, tão
tarde quanto o “tarde da noite”. Os doze discípulos reuniram-se ao redor do
casal, vestidos em seus mantos negros, deixando seus rostos invisíveis para o
inimigo deste mundo – o amanhecer dourado terá de chegar. Meus doze amantes –
amantes de verdade, aqueles que amam – sacaram da espada e do pano, enquanto os
corpos mundanos, humanos, carnais, deleitavam-se em jorros de gozo infindo.
Mamãe abriu os olhos e se deparou com a lâmina brilhando sobre sua testa,
descendendo velozmente, perfurando seu lindo rosto de quarenta anos tão
brutalmente quanto aquele animal estúpido e pobre penetrava a vagina dela
repetidamente. O destino dele não foi diferente, cortamos as mãos, depois os
pés – tudo com aplicações cirúrgicas seqüenciais, para evitar a morte
instantânea – por fim arranquei os olhos e os mastiguei e os engoli. Tinham
sabor de sombra orgânica. Gargalhei repetidas vezes e tudo escureceu
repentinamente.
Acordei
em minha cama, após desesperados sonho e sono. Verifiquei onde estava minha
espada. Desci as escadas e, no percurso, escutei minha mãe gemendo,
provavelmente estaria dando prazer a qualquer vagabundo bem dotado que a
desejasse. Encontrei minha obra-prima no chão da cozinha, embebida em sangue
fresco. Claudius guardava um sorriso horripilante no canto dos lábios e
confessou-me ter sido muito divertido começar com o amanhecer dourado tão cedo.
O amanhecer há de ser cedo, afinal, é ele que inicia tudo.
Ass.:
Igor Livramento

Dessa vez foi difícil pra mim entender tudo sem a explicação do próprio autor, apesar que não me dei muito tempo pra pensar sobre
ResponderExcluirbem interessante, mais ainda depois de entender completamente...sua técnica continua fluida e profissional como sempre
violento e triste...é, combina com você né?~
transformar coisas ruins em arte, é uma arte em si