sábado, 25 de fevereiro de 2012

Noutra Noite Qualquer



         O vento soprava impiedosamente. A cabeça careca, lisa, o corpo recoberto por roupas simples, calça larga, sapatilhas nos pés, moletom a cobrir do tronco para cima, sobreposto a uma camiseta preta simples, de mangas longas. Ele adentrava o bar com um semblante pacífico e tranqüilo. Todos os barbudos, os carecas, ambos musculosos, observavam o jovem cerca de dez anos mais novo que a maioria ali presente.

         - Quem é Gabriel? – Pronunciou-se, finalmente, quebrando o silêncio.

         Um homem grande, de musculatura desenvolta, com algumas tatuagens de caveiras em chamas e santos espalhadas pelo corpo levantou-se, detrás do balcão. Havia um lenço preso à sua testa, qual cobria a falta de cabelo, visivelmente compensada pelo excesso de barba.

         - Sou eu, pequenino. O que você quer? – Disse com a voz arranhada do uísque sem gelo qual acabara de beber.

         - Eu não estou nada feliz com que fizeste Gabriel, ao meu irmão. Ele está hospitalizado por tua causa. E eu bem sei, via relatos dos presentes na ocasião, que tu estavas completamente consciente. Poderias ter evitado a tragédia. – Proferiu o garoto careca, de rosto liso, barba feita. Sua voz matinha um tom calmo e pacífico, quase amigável e seus olhos dificilmente demonstravam a vingança esquentando e queimando seu sangue, internamente, em sua disciplinada mente.

         - Você fala demais, pirralho. Nem tem idade para entrar aqui. Rala peito ou o couro vai comer. Anda! Anda! – Gritava o homem, para que sua voz fosse escutada por todos, enquanto fazia sinais de dispersão para o jovem.

         - Sei que vingança é algo ruim, todavia eu quero reclamar tua briga com meu irmão, Gabriel. Dar-te-ei a chance de me atacar sete vezes, das quais todas serão defendidas. Terás sete chances de desistir e pedir perdão. – Continuava muito calmo e seguro de si.

         - Haha! O pivete quer uma surra! Rapaziadas só observem! – O brutamonte correu na direção do jovem e desferiu um soco com o braço esquerdo, levemente curvado, qual o garoto defendeu magnificamente.

         No soco seguinte, utilizando o punho direito, o garoto apenas esquivou, movendo sua cabeça para o lado. O homem então subiu a canhota, numa tentativa frustrada de acertar o queixo do garoto. Nosso jovem empurrou a canhota do velho homem com ambas as palmas, fazendo com que ele acertasse a si mesmo, ficando assim com o nariz sangrando.

O homem manteve uma distância segura, limpou o nariz e chutou com a perna direita, que foi impedida por outro movimento de palma aberta, da mão esquerda do mestre em certa arte marcial, qual a ergueu e moveu-se para frente, derrubando o velho sobre uma mesa com muitos copos e garrafas, fazendo-o cortar-se severamente. O sangue escorria do rosto e do tronco e braços cortados do homem. O garoto deu as costas e retirou-se.

O vento continuou a soprar impiedosamente.
Ass.: Igor Livramento

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