A
princípio suspeitava-se que Azkriel fosse um megalomaníaco, devido a seu comportamento
autoritário, seu complexo messiânico e suas falas e pensamentos sobre um novo
mundo. Contudo, os Easter Bunnies perceberam, pelo passar do tempo, que o
segundo membro mais jovem do grupo não estava errado, tampouco em desacordo com
os objetivos da equipe. Grande estudioso das ciências humanas, Azkriel era um
empreendedor de altíssimo nível, talvez um dos maiores empresários que nosso
país miserável já teve a capacidade de fazer surgir. Mesmo entre tão caros
amigos, ele ainda era respeitado por sua gigantesca sabedoria. Não somente
conhecimento, porque não basta ler, conhecer e entender para fazer valer algo
que se sabe, é preciso aplicar o conhecimento adquirido, enriquecendo e
melhorando as experiências. Nisso, sem dúvidas, Azkriel foi um mestre. Planos e
mais planos sem falhas, mas jamais se admitiu perfeito arquiteto de mortes,
sempre reunia o Conselho dos Altíssimos, mesmo quando seu plano já era
estritamente perfeito, ausente de falhas quaisquer.
Muito
bem ele sofre e chora, dentro do apartamento de Júlia, dentro do banheiro, com
os dois cadáveres extremamente mutilados perto de si. O sangue pinta os
azulejos de carmesim, impedindo qualquer negação que venha a ser dita sobre o
assassinato. Todavia, não se trata de um ato qualquer, o fenômeno tomará sua
real forma, esplendorosa, quando chegar a hora.
A
polícia utiliza-se de megafones e os transeuntes param para observar toda a dor
que permeia a alma de nosso protagonista angelical. Aí reside outra dúvida:
ele, além de realmente muito bonito, é rico, inteligente e carinhoso. Por que
essa vagabunda o deixou? Vadias nunca deixarão de ser vadias, definitivamente.
Vocês sabem do que falo leitoras e leitores.
Abandonado
em um estado de desolação e vacuidade, sua alma já não mais residia em si,
havia abandonado o corpo para aventurar-se nas loucuras da inconsciência.
Desejos reprimidos, sonhos esquecidos, vida e morte súbitas, loucuras mil. A
paixão pelo saber não fazia mais sentido, tudo, em verdade, perdia o sentido.
Somente a fantasia valia naquele momento e ele bem sabia disso.
O
som das pancadas na porta atormentou sua mente e, pela última vez, Azkriel, a
entidade psicofísica esteve ali, definida em seu meio cultural, para
abandoná-lo de vez. Três policiais adentraram o imundo apartamento, manchado de
ódio e violência, mas jamais arrependimento. O primeiro foi morto por uma facada
no rosto, o segundo teve um pedaço rosto arrancado. O terceiro por sua vez foi
capaz de matar nosso herói moderno com sete tiros pelo corpo todo. E ainda na
hora da morte Azkriel sorriu, fechando os olhos calmamente em meio à dor e
sentindo-se bem por estar capaz, finalmente, de não precisar encarar mais
qualquer forma de sofrimento que a vida terrena acarreta.
No
segundo dia em que seu corpo estava para ser devolvido a possíveis familiares
ele desapareceu e foi velado, secretamente, na antiga base do, há muito extinto,
grupo de assassinos. Era a hora dos Easter Bunnies juntarem-se novamente e
cumprirem sua última promessa feita ao The Head. Ele, o grande gênio qual
encabeçou as obras-primas da equipe. Ele, o grande mestre qual estabilizou
todos juntos e fortaleceu as amizades. Ele, o único que se manchou apenas duas
vezes de sangue, onde apenas uma das vezes foi a serviço do grupo, constante
dos seus primórdios, quando nem mesmo um nome ele tinha. Ele, o homem que será
lembrado para sempre, com ódio por muitos, e amor pelos poucos que
compreenderam suas ações e decisões.
Htsiel
reuniu os Easter Bunnies no antigo covil onde toda a vilania, toda a maldade
poderia ser encontrada por olhos comuns, mas apenas um coração sofredor e
sincero, purificado, um coração de anjo acharia ali a verdadeira salvação para
esse mundinho medíocre. Assemelhava-se a um estacionamento para caminhões de
grande porte. As Baleias, como diria Azkriel enquanto vivia. Htsiel abriu o
jogo, em presença de todos, e solicitou que trouxessem o conteúdo das
gigantescas carretas. Bombas de grande porte, alimentadas por material
radioativo.
-
Ah! Nada como os excelentes serviços prestados pelo Disciple. Quanta alegria
desse garoto! Faz honra aos dias que passou junto do Head. Que saudades... –
Proferiu, com notório saudosismo, o antigo parceiro de Azkriel, Avraham.
Avraham,
um monstro em combate corpo-a-corpo e à distância, utiliza sempre dos serviços
do prodigioso jovem chamado de Disciple.
Disciple é um garoto
que passou sua juventude ao lado de The Head, compartilhando, assimilando,
internalizando seus conceitos, suas concepções, suas interpretações divinas de
vida, morte, justiça, amor, ódio, violência, paz, sua visão política, suas
crenças semirreligiosas, entre tudo mais que uma pessoa pode compartilhar. Além
de ser uma réplica mais jovem do líder do grupo, também é um gênio da
engenharia militar. Sempre serviu à equipe sem recusa e sem hesitação. Produziu
as melhores criações em termos de armamento, do levíssimo ao pesadíssimo,
sempre oferecendo preços realmente baixos por considerar Azkriel como seu pai
de criação e eterno mestre.
- Como Azkriel costumava
dizer: “alguns me chamarão de Deus, outros de Demônio. Uns de anjo e outros de
aparição. Apenas os verdadeiros chamar-me-ão pelo nome de criação, a
santificadora luz: Azkriel.” – terminava, assim, Htsiel, a primeira etapa dos
planejamentos dos Easter Bunnies para vingar a morte de seu amado amigo.
Ass.: Igor
Livramento

