domingo, 25 de março de 2012

Easter Bunnies - Capítulo 02: Quem São Os Anjos



         A princípio suspeitava-se que Azkriel fosse um megalomaníaco, devido a seu comportamento autoritário, seu complexo messiânico e suas falas e pensamentos sobre um novo mundo. Contudo, os Easter Bunnies perceberam, pelo passar do tempo, que o segundo membro mais jovem do grupo não estava errado, tampouco em desacordo com os objetivos da equipe. Grande estudioso das ciências humanas, Azkriel era um empreendedor de altíssimo nível, talvez um dos maiores empresários que nosso país miserável já teve a capacidade de fazer surgir. Mesmo entre tão caros amigos, ele ainda era respeitado por sua gigantesca sabedoria. Não somente conhecimento, porque não basta ler, conhecer e entender para fazer valer algo que se sabe, é preciso aplicar o conhecimento adquirido, enriquecendo e melhorando as experiências. Nisso, sem dúvidas, Azkriel foi um mestre. Planos e mais planos sem falhas, mas jamais se admitiu perfeito arquiteto de mortes, sempre reunia o Conselho dos Altíssimos, mesmo quando seu plano já era estritamente perfeito, ausente de falhas quaisquer.

         Muito bem ele sofre e chora, dentro do apartamento de Júlia, dentro do banheiro, com os dois cadáveres extremamente mutilados perto de si. O sangue pinta os azulejos de carmesim, impedindo qualquer negação que venha a ser dita sobre o assassinato. Todavia, não se trata de um ato qualquer, o fenômeno tomará sua real forma, esplendorosa, quando chegar a hora.

         A polícia utiliza-se de megafones e os transeuntes param para observar toda a dor que permeia a alma de nosso protagonista angelical. Aí reside outra dúvida: ele, além de realmente muito bonito, é rico, inteligente e carinhoso. Por que essa vagabunda o deixou? Vadias nunca deixarão de ser vadias, definitivamente. Vocês sabem do que falo leitoras e leitores.

         Abandonado em um estado de desolação e vacuidade, sua alma já não mais residia em si, havia abandonado o corpo para aventurar-se nas loucuras da inconsciência. Desejos reprimidos, sonhos esquecidos, vida e morte súbitas, loucuras mil. A paixão pelo saber não fazia mais sentido, tudo, em verdade, perdia o sentido. Somente a fantasia valia naquele momento e ele bem sabia disso.

         O som das pancadas na porta atormentou sua mente e, pela última vez, Azkriel, a entidade psicofísica esteve ali, definida em seu meio cultural, para abandoná-lo de vez. Três policiais adentraram o imundo apartamento, manchado de ódio e violência, mas jamais arrependimento. O primeiro foi morto por uma facada no rosto, o segundo teve um pedaço rosto arrancado. O terceiro por sua vez foi capaz de matar nosso herói moderno com sete tiros pelo corpo todo. E ainda na hora da morte Azkriel sorriu, fechando os olhos calmamente em meio à dor e sentindo-se bem por estar capaz, finalmente, de não precisar encarar mais qualquer forma de sofrimento que a vida terrena acarreta.

         No segundo dia em que seu corpo estava para ser devolvido a possíveis familiares ele desapareceu e foi velado, secretamente, na antiga base do, há muito extinto, grupo de assassinos. Era a hora dos Easter Bunnies juntarem-se novamente e cumprirem sua última promessa feita ao The Head. Ele, o grande gênio qual encabeçou as obras-primas da equipe. Ele, o grande mestre qual estabilizou todos juntos e fortaleceu as amizades. Ele, o único que se manchou apenas duas vezes de sangue, onde apenas uma das vezes foi a serviço do grupo, constante dos seus primórdios, quando nem mesmo um nome ele tinha. Ele, o homem que será lembrado para sempre, com ódio por muitos, e amor pelos poucos que compreenderam suas ações e decisões.

         Htsiel reuniu os Easter Bunnies no antigo covil onde toda a vilania, toda a maldade poderia ser encontrada por olhos comuns, mas apenas um coração sofredor e sincero, purificado, um coração de anjo acharia ali a verdadeira salvação para esse mundinho medíocre. Assemelhava-se a um estacionamento para caminhões de grande porte. As Baleias, como diria Azkriel enquanto vivia. Htsiel abriu o jogo, em presença de todos, e solicitou que trouxessem o conteúdo das gigantescas carretas. Bombas de grande porte, alimentadas por material radioativo.

         - Ah! Nada como os excelentes serviços prestados pelo Disciple. Quanta alegria desse garoto! Faz honra aos dias que passou junto do Head. Que saudades... – Proferiu, com notório saudosismo, o antigo parceiro de Azkriel, Avraham.

         Avraham, um monstro em combate corpo-a-corpo e à distância, utiliza sempre dos serviços do prodigioso jovem chamado de Disciple.

Disciple é um garoto que passou sua juventude ao lado de The Head, compartilhando, assimilando, internalizando seus conceitos, suas concepções, suas interpretações divinas de vida, morte, justiça, amor, ódio, violência, paz, sua visão política, suas crenças semirreligiosas, entre tudo mais que uma pessoa pode compartilhar. Além de ser uma réplica mais jovem do líder do grupo, também é um gênio da engenharia militar. Sempre serviu à equipe sem recusa e sem hesitação. Produziu as melhores criações em termos de armamento, do levíssimo ao pesadíssimo, sempre oferecendo preços realmente baixos por considerar Azkriel como seu pai de criação e eterno mestre.

- Como Azkriel costumava dizer: “alguns me chamarão de Deus, outros de Demônio. Uns de anjo e outros de aparição. Apenas os verdadeiros chamar-me-ão pelo nome de criação, a santificadora luz: Azkriel.” – terminava, assim, Htsiel, a primeira etapa dos planejamentos dos Easter Bunnies para vingar a morte de seu amado amigo.


Ass.: Igor Livramento

terça-feira, 20 de março de 2012

Easter Bunnies - Capítulo 01: O Começo Do Fim



         Estava o garoto, tristemente, desocupado durante o horário de trabalho e observava o twitter da ex-namorada. Lendo a descrição do perfil de usuário ele se recorda das bandas favoritas dela, de sua comida favorita e observa, ao final, uma visão não menos rude que um ataque terrorista: “E sou do Daniel”.

         - Um instante! – pensou ele. – Quando estavas comigo, vadia, não eras “minha” porque não mais vivemos numa escravidão e as pessoas não pertencem umas às outras como propriedades, visto que vivemos e sobrevivemos perante a valorização da individualidade de cada ser humano, respeitando seu universo próprio e pessoal, criando e desatando laços aqui e ali. – desenvolvia o pensamento dentro de si mesmo.

         É então que ele decide buscar o perfil de usuário do novo namorado e a merda está feita. Deus sabe do que falo.

         - E gosto de tuhn tcha tcha tuhntuhn tcha?! Quem porras este pedaço de bosta pensa que é? Assim não vai dar, não vai rolar. Porra! Que vadia! Ela me trocou... Por isso!? De jeito maneira! Isso não vai ficar assim. Não mesmo. – remoia-se em pensamento sombrios e cruéis.

         Há de se notar que ele não é um garoto normal, seus sentimentos não condizem com os padrões da maioria das pessoas e isso o torna meu objeto de narração. Faz-se aqui o milagre da fantasia e nomeia-se o garoto por Azkriel. É seu nome de enredar. Se não o é, passará a ser.

         Ainda três horas da tarde e nosso protagonista adentra o apartamento de sua ex-namorada, aproveitando a saída dela. Ela o cumprimenta e diz que não demorará em retornar. Ele apenas sorri com os lábios, sem expor os dentes e aproveita-se do momento. Quando a porta se fecha ele sorri de forma obscena, vívida, maldita, um sorriso esgarçado e odiento.

         Voltando pelas horas da noite, alegremente, a dona do apartamento encontra sangue no chão da sala e sobre ambos os sofás. Nada se vê na cozinha. Levantando os olhos para o corredor ela observa seu ex-amante parado, com um olhar vago, distante e os lábios trêmulos. Suas mãos estão banhadas em sangue e possuem pequenos pedaços do concreto das paredes enfiadas nelas. As paredes possuem grandes buracos e rachaduras profundas, demonstrando a força sobre-humana do garoto.

         - Yuki! – a jovem corre desesperadamente em direção ao quarto, buscando encontrar seu cãozinho com vida.

         Doce engano. Nosso herói o havia aberto com as próprias mãos, espalhando suas vísceras pelo chão. O olhar de sofrimento do animal era pouco notório. Júlia volta correndo, enfurecida, a fim de enfrentar nosso homem e monstro. Porque eu sei que muitos de vocês o chamam de monstro ao saberem do fim trágico que ele deu ao animal. Seus parciais de merda.

         Enganada pela fúria ela o golpeia a face com uma tapa. É o fim. Azkriel sorri como um demônio, seus olhos avermelham-se e enegrecem-se. O verdadeiro fim chegou. Nem mais um amanhã para usar de desculpa. Nem mais um novo amor para esquecer um antigo.

         Desfazendo a garota em trapos de uma pessoa, ele a espanca com tamanha violência que seu corpo desmaia e acorda repetidas vezes, durante a série de socos desferidos contra seu rosto e torso. Gentilmente segurando-a pelas canelas, rompe ambos os joelhos para trás em fraturas expostas, contrárias ao movimento natural. Ele então arranca o olho direito da garota, mastigando-o como um animal esfomeado. O frágil corpo insiste em permanecer acordado e vivo, fazendo-a gritar incessantemente, enriquecendo a maldade de nosso protagonista. Num ato de puro amor ao ódio ele morde a mão dela, expondo mais alguns ossos ao ar ambiente.

         É então que o grande espetáculo da miséria humana toma forma. Arrastando o corpo de sua segunda vítima, sua ex-namorada, até o banheiro, ela é capaz de avistar, mesmo em meio ao próprio sangue e sofrimento, o corpo de Daniel, seu atual namorado. Chorosa, ela identifica o corpo do atual amante amarrado de ponta-cabeça, com diversos cortes sobre o torso, pernas, braços e rosto. O namorado sorri ao ver o objeto de sua paixão, porém o dono da situação usa-se de um alicate para arrancar-lhe alguns dentes, impedindo-o de sorrir em meio a tamanho sofrimento.

         - Eu sou seu Deus agora! Eu sou a porra do amor que você esmagou quando beijou aquele filho da puta na minha frente e disse que tudo tinha acabado! Tá vendo?! Você tá vendo a fonte de toda a força que flui no universo! Daquilo tudo que vive e que morre! Eu sou Deus! – e gargalhava como um maníaco, afinal é um maníaco, abusando do controle da situação sobre ambas as vítimas.

         Assim, fria e indiferente, a noite se acabava, com os vizinhos do andar logo abaixo, o segundo andar, fazendo uma bela festa, com música alta a noite inteira, impedindo os gritos de serem percebidos. Deu-se assim o começo do fim. Azkriel não mais pertence aos Easter Bunnies enquanto membro vivente, mas isso... Contarei só no próximo capítulo.

Ass.: Igor Livramento

sábado, 3 de março de 2012

A Luz



Querida Luz,

 Estou com medo, um pouco sem forças também. Sinto uma espécie de frio interior que não passa com cobertas, nem casacos, nem nada quente que eu possa imaginar. É estranho, eu não sei bem o que pensar. Tantas coisas se passam em minha mente, lembro de momentos de quando eu era bebê! Isso não é louco? Pensei que eu não tinha essa capacidade, mas parece que minha memória está a fim de relembrar as coisas. Eu realmente vivi uma vida boa, querida.

Lembro-me agora das folhas que eu pegava pelas ruas do antigo bairro em que eu morava... Eu era tão criança! Tão pequeno! Tão sonhador... Lembro da primeira garota que eu me apaixonei. Era engraçado! Uma sensação de poder! O suor escorria pelas minhas mãos quando eu a avistava de longe chegando ao colégio. Meu coração parecia um carro sem freio. Minha alma gelava, mas eu me sentia quente! Doce primeiro amor... Lembro-me com mais intensidade do meu segundo amor, porém eterno. Margarida! A mulher de minha vida... Com ela, além de eu sentir essas coisas do primeiro amor, eu sentia uma ternura, uma vontade louca de guardá-la em algum lugar e apreciá-la toda noite, como se fosse uma boneca que eu cuidava carinhosamente.
Com ela descobri o que era amar, o que era se apaixonar, o que era crescer nessa vida. Formei uma família, tive lindos filhos, netos, bisnetos... Infelizmente, eu há vi partir. Algo que eu não gostava de imaginar. Não consigo descrever o que senti naquele momento. Foi algo ensurdecedor. Uma voz gritando em meus ouvidos! Era a voz da dor. Uma parte de mim se foi com minha Margarida. A minha metade partiu junto a ela. Mas eu continuei nesse mundo, e vi mais um neto nosso nascer. Sentia ela ao meu lado, chorando, emocionada pela glorificação da nossa família...

Eu sempre fui um homem trabalhador, não sei como, mas consegui dar o que prometi a minha mulher, e meus filhos. Aquela família feliz! Tão feliz... Claro, brigas aconteceram como em qualquer família... Mas sempre o amor falava mais alto.
Agora, eu sinto o cheiro das laranjeiras do meu jardim quando era menino, sinto o cheiro da chuva vindo, sinto o gosto dela molhando os gramados...
Agora me lembro do meu casamento, da minha doce lua de mel... Lembro do nascimento de Violeta, nossa primeira filha. Sinto uma lágrima correr pelo meu rosto. E um sorriso se abrir nos meus olhos. Isso é louco! Ó céus!
Sinto a mão de alguém na minha mão. Sinto o beijo de alguém no meu rosto. Sinto a presença dos meus filhos...
Sinto-me fraco, mais fraco...
Sinto-me feliz! Com uma vida completa.

Tudo bem, querida Luz, eu estou entendendo... Sei que já cumpri meu tempo, e formei meu legado.
Eu vejo! Vejo alguém agora vindo em minha direção, alguém pura, com um vestido vermelho, e uma aparência serena. Ah! É meu amor... Minha Margarida! Sinto meu coração ficar mais fraco, e a mão dela chegar a minha mão. Como em um túnel louco vejo milhares de fotografias, da minha própria vida, passando diante do meu cérebro. Reconheço cada momento. Minha memória se permitindo sua última utilidade! Sinto a mão de Margarida na minha! Pouco sinto a mão que sentia antes em minha mão, e o beijo que sentia antes em meu rosto... Vida plena, doce vida.

Estou pronto. Leve-me, querida Luz.

Ass: Beatriz Sá