domingo, 22 de abril de 2012

Easter Bunnies - Capítulo 04: Enquanto O Sol Se Põe


         Talvez ninguém tenha pensado nisso, mas os garotos com certeza tiveram a grande ideia. Htsiel planejou tudo e coordenou o grupo como jamais visto antes pelas mãos de tão impetuoso membro. Avraham, não contente com o incidente suicida de seu parceiro de longa data, enveredou-se por outras escolhas e terminou caindo no mesmo plano dos colegas, por mais que não desejasse. Sua ambição era boa, quiçá autodestrutiva, contudo muito otimista e significativa. A única diferença é que ele não se uniria aos demais, no derradeiro momento.

Fatídico ou não, Avraham era genuinamente digno do cargo de companheiro de Azkriel. Sua capacidade de planejamento era suprema, indiscutível. Recorda uma vez que ele salvou toda a equipe com uma simples troca de percurso na rota de fuga dos assassinos. As melhores observações sempre eram feitas por ele. O mais preciso olhar analítico de toda a instituição, ele detinha uma capacidade muito rara e valiosa de pensamento e encadeamento lógico consequencial jamais vista. Sua fama era de estrategista, por muitos ignorarem os poucos e extremamente satisfatórios serviços que já havia feito. Senhor dos martelos.

Contando menos de duas horas para o fim da história, Disciple embarcou no ônibus e voltou para sua casa, com um sorriso no rosto e uma lembrança na memória. Por fim seria capaz de se tornar líder de alguma coisa, repousar numa posição superior a alguém, comandar alguém, sentir o gosto do poder. Mal ele conhecia o futuro. Mal o futuro conhecia a si mesmo.

O último caminhão posicionou-se no norte da ilha, perto do atracadouro. Seis mergulhadores desceram pela lateral rochosa e encontraram seus alvos com relativa facilidade. Sem demora, emergiram, em conjunto, tais quais atletas. Um simples sinal. Um telefonema foi feito.

- Sim, Htsiel, pode fazer o pronunciamento e estamos feitos. Que nossas carcaças apodreçam em paz e nossos nomes sejam lembrados por toda a eternidade como os protetores do novo mundo. Que Disciple entenda o recado, finalmente. – Dizia a voz rouca de Avraham, em tom solene e grave.

- Um instante. Deixe Ré se pôr pela última vez. Ele tem o direito de se despedir, afinal, não mais o veremos. Encontraremo-nos com o fim da história, finalmente. A última página. Aprecie o céu colorido. Sinta-se plenamente envolvido pela vida, pela última vez, sinta-a beijar teus lábios e abraçar teu corpo. Sinta a vida como nunca sentiu. Ame-a, deixe-a amar-te. Viva-a. Respire fundo e feche os olhos. É agora. – A voz de Htsiel esvaiu-se pacífica e suavemente. Era chegada a hora. Um simples movimento. Um dedo e um botão. O fim.

O leitor mal deve entender o que se passou. Bem, os Easter Bunnies implantaram bombas de porte médio, projetadas para destruição em grande escala, sob a ilha que habitavam. O Sol se pôs e Htsiel desejou observar, apreciando sua última visão antes da morte. É quando finalmente decide por apertar um pequeno botão em seu bolso e a ilha começa a estremecer e desmoronar, abrir-se em partes e afundar. Uma cidade inteira engolida pelo oceano.

A morte de – aproximadamente - um milhão e duzentos mil pecadores, mentirosos, enganadores, monstros. Demônios, como chamaria Azkriel. E, para ele, o mundo foi salvo. O mundo também concorda, os Easter Bunnies morreram, o mundo se sente salvo. Disciple chora ao ver as imagens do território em chamas e submergindo. Um velho império cai para que um novo império nasça.
Ass.: Igor Livramento


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Easter Bunnies - Capítulo 03: Vida


         - Não é fácil definir uma teoria que compense as dúvidas, especialmente para nós, os leigos. Contudo, e isso eu lhe garanto, será de fácil entendimento daqui para frente. Siga-me mentalmente e peça a parada sempre que precisar. – Dizia Azkriel, sorridente.
         Sua alma se regozijava em infinda alegria. Um garoto, finalmente, desejava saber o que ele – e somente ele – sabia. Ninguém do grupo se prestava a escutar seus longos discursos sobre a vida, a morte, o universo, Deus e tudo mais. Disciple, em compensação, amava tanto seu mestre que roia as unhas de expectativa, aguardando as descobertas.
         - Se a Grande Explosão estiver correta, muito do que pensamos e conhecemos já estará decifrado, sem grandes dificuldades. Isso é uma problemática de cosmologia. A cosmologia lida com o surgimento, o dito nascimento, e a formação do universo. Mas nem tudo são flores. Eu mesmo tenho um íntimo sentimento de que o universo sempre foi assim. Sempre existiu. E sempre quer dizer: sem começo nem fim. Difícil definir como isso pode ocorrer, mas eu aceitei muito bem em meu coração, no íntimo dos sentimentos. – Grave silêncio sucedeu e os olhos questionadores do jovem indicavam uma curiosidade bizarra e satisfatória.
         - Como eu cheguei nisso? Anos de vida. Longos anos de vida. No princípio eu acreditava num pensamento interessante, não muito divergente da ciência, mas que tinha pontos, pequenos pontos, os quais muito me incomodavam. O nome da junção desses pontos é Deus. Ou Jeová, ou Javé, ou YHVH, ou Já, ou Allá, ou Ein Soph, ou qualquer coisa do gênero. – Azkriel sorriu.
         Disciple também sorriu. Estava contente com o aglomerado informacional que seu tão querido pai – autodeclarado – possuía. Ele era realmente um gênio, ou um monstro. Não importava o que fosse, era o rei dos reis para o ingênuo adolescente.
         - Não é difícil se ocupar pensando na vida. Nada difícil. A vida como a compreendemos é riquíssima em dúvidas ainda inexplicadas ou, ao menos, permanentemente irresolutas para a maioria de nós. Maioria tola que não – que jamais – deseja o conhecimento. O saber é, provavelmente, a melhor informação que pode adentrar sua vida e constituir seu ser. O melhor de tudo isso? Você decide o quanto quer e a qualidade que deseja. – Mais um silêncio se formou, nosso heroi havia decidido por um copo d’água.
         - Se a Grande Explosão estiver correta, nós existíamos há, aproximadamente, 14 bilhões de anos, num aglomerado de matéria extremamente condensada e aquecida. Nada muito bonito? Eu acho lindíssimo, mesmo que não seja minha crença mais ferrenha. Todos nós, lá, inanimados, prontos para sermos expelidos em diversas direções a tempos iguais ou diferentes, resultando em tudo que observamos hoje, ou já foi observado em algum momento do passado. Você poderia ser uma Estrela de Neutrons, agora. Você poderia ser um meteorito, ou um dos satélites naturais de Saturno. Ou simplesmente poderia ser Hidrogênio perdido por aí, na imensidão escura. Entretanto, por uma série de pequenos passos do acaso, sutilmente estruturado, mas não completamente, você está aqui e você está vivo. Sim? – O prodigioso armamentista havia erguido sua destra em sinal de interrupção.
         - Tudo bem, você explicou várias coisas que eu já sabia e algumas poucas novidades bem divertidas. Por que você disse que estou vivo, em vez de dizer que sou vivo? Mamãe pode ser advogada, mas tenta me enfiar umas crenças católicas nada divertidas. – e silenciou com pesar, sentindo uma pontada de culpa por reclamar da própria progenitora. – Indagou Disciple, sem hesitar.
         - Por quê? Porque um dia você estará morto, assim como eu e todos os entes viventes daqui e de qualquer outro lugar do firmamento. Eu mesmo tenho minhas contradições lógicas a esse tema. Mas o que fazer? Ninguém disse que a realidade é logicamente consistente. Ninguém disse que o mundo, os céus e os mares fazem sentido. É apenas uma suposição humana acreditar que a lógica pode ditar os parâmetros da realidade. Há, mesmo, leis da física que contradizem a intuição lógica comum. Talvez não sejamos capazes de abranger em nosso tempo de vida, ou em nossas limitadas mentes, uma lógica muito maior, mais complexa e rica, que englobaria tudo que existe e mesmo aquilo que inexiste. – Lenvantou-se da cadeira, nosso protagonista, esticando os braços e movimentado muito bem os joelhos.
         - Como é bonito o céu. Já reparou nos tons azulados do alto infinito? Microlentes gravitacionais e polarização da luz. Há quem diga que acabei de destruir a beleza do céu. Eu os mando pro inferno. Acabei de adicionar ainda mais beleza ao céu, porque agora sei os motivos dele ser assim e de funcionar como funciona. Sei até que ponto posso reproduzi-lo, imitá-lo, modificá-lo, etc. Indo de encontro ao pensamento medieval, ainda vigente em nós, ocidentais, o conhecimento não é algo ruim, negativo. Muito, mas muito mesmo, pelo contrário. É o que pode haver de mais magnífico neste mundo. Somos todos produto do conhecimento. Se outro pensamento meu estiver certo, ou melhor, um pensamento que aceito de alguns cientistas, então somos todos, literalmente, aglomerados organizados de informação. E isso nos tornaria ainda mais apreciáveis como obra do acaso, em detrimento doutros pensamentos. – Azkriel silenciou.
O desconhecido gênio caminhou até o filtro, girou a torneira e encheu seu copo com mais água em temperatura ambiente. Bebeu tudo num único gole, saciando-se.
- Certa vez estava eu, observando uma pequena caixa roxa, contendo clipes. – Pausou e fez longa inspiração. – Fixei meu olhar, por algum motivo que agora não recordo, num ponto próximo à caixa. Um ponto muito escuro contido no plano da mesa de madeira sobre a qual estava disposta a caixinha. Lentamente os pensamentos se sucediam e aprofundavam. Incrível e animadora distorção visual se produziu em minha compreensão e já a caixinha parecia bidimensional. O mundo é, definitivamente, lindíssimo. – Parecia deixar-se levar por uma correnteza macia e agradável.
         - Aquela é uma das crenças semirreligiosas sobre as quais você me falou antes de virmos pra cá? – Questionava o discípulo e filho de criação do herói.
         - Sem dúvidas. Todas elas. Pensando agora eu prefiro que hajamos explodido há alguns bilhões de anos, a deixar com que o espaço-tempo exista desde sempre. É realmente mais legal e divertido, porque concede exclusividade. Caso o espaço-tempo exista desde sempre e continuará a existir sem fim, um infinito de possibilidades ocorreu, ocorrerá e ocorre. É até possível unificar. Uma expansão demasiada, como numa mola, gera uma contração excessiva, sendo assim um processo autossuficiente e eterno. O problema da criação não me cabe, nem agrada saber. Não creio necessário algo fazer surgir esse processo, mesmo porque, se é eterno, então é eterno, não teve origem, ou causa primária que o valha. Simplesmente sempre foi e sempre será assim. É até mais confortável e justo que um ser sem limites comandando, a seu bel-prazer, nossas existências medíocres. – Bocejava Azkriel, demonstrando a má respiração que cultivava diariamente.
         Ambos os cérebros, já cansados, resolveram caminhar pelo bairro. Ao retornarem, tomaram seus banhos, cozinharam um bom frango ensopado e um delicioso macarrão integral, escovaram seus dentes e deitaram para aguardar o amanhecer seguinte. O frio daquela noite era irreconhecível sob as grossas cobertas de posse de nosso protagonista. E o tempo fez do ato de sonhar um reino externo ao mundo.
Ass.: Igor Livramento

terça-feira, 3 de abril de 2012

Criança sempre criança


Quando eu era criança sonhava em ser maior, em poder fazer aquilo que os adultos faziam e que eu era privada de uma forma que me magoava, docemente, mas magoava. Hoje, eu estou feliz por estar onde estou e ser quem eu sou. Eu cresci! Estou viva! Se eu não tivesse crescido, não conheceria meus amigos de alma que conheci, não aprenderia nada do mundo, não conheceria outras vidas como se fosse a minha própria... Não decidiria meu futuro, nem sonharia com ele... Eu sou grata pela vida, a idolatro mais que tudo, pois sem ela nada do que eu amo eu amaria. Mas... Às vezes eu sinto saudades da época em que eu não sabia as impurezas do mundo, não sabia das responsabilidades, nem pensava no dia seguinte; Que vestia minhas barbies e achava que aquilo estava decidindo o mundo. Sinto falta da época em que o parquinho era o melhor e maior lugar que eu podia imaginar estar, onde os problemas eram a difícil decisão de que sorvete tomar, onde eu sentia o cheiro da liberdade, que não existia, mas que eu achava estar presente nas minhas invenções e nos amigos imaginários que me acompanhavam sempre.
Sou feliz por ter crescido, mas olho para o passado com saudade e certa melancolia. Lugares me levam de volta ao passado, cheiros me lembram de brincadeiras. Talvez seja um lado artístico que faz tudo parecer cena de filme... Mas é tão real, que eu até esqueço.
A vida é mesmo louca. Um dia você nada sabe no outro tudo quer no outro tudo pode e no outro precisa conquistar loucamente. Mas me diga quem não sente saudade daquilo que foi? Que fez! Aquilo que fez bem, que aproveitou e curtiu.
Você se torna adulto e outras loucuras se passam pela sua mente e se tornam seu desejo. Mas ambicioso certamente, mas sempre seu. As lembranças serão sempre uma eterna companhia. Nada é esquecido, tudo é arquivado.
Isso é o bom de viver.

 Ass: Beatriz Sá