domingo, 22 de abril de 2012

Easter Bunnies - Capítulo 04: Enquanto O Sol Se Põe


         Talvez ninguém tenha pensado nisso, mas os garotos com certeza tiveram a grande ideia. Htsiel planejou tudo e coordenou o grupo como jamais visto antes pelas mãos de tão impetuoso membro. Avraham, não contente com o incidente suicida de seu parceiro de longa data, enveredou-se por outras escolhas e terminou caindo no mesmo plano dos colegas, por mais que não desejasse. Sua ambição era boa, quiçá autodestrutiva, contudo muito otimista e significativa. A única diferença é que ele não se uniria aos demais, no derradeiro momento.

Fatídico ou não, Avraham era genuinamente digno do cargo de companheiro de Azkriel. Sua capacidade de planejamento era suprema, indiscutível. Recorda uma vez que ele salvou toda a equipe com uma simples troca de percurso na rota de fuga dos assassinos. As melhores observações sempre eram feitas por ele. O mais preciso olhar analítico de toda a instituição, ele detinha uma capacidade muito rara e valiosa de pensamento e encadeamento lógico consequencial jamais vista. Sua fama era de estrategista, por muitos ignorarem os poucos e extremamente satisfatórios serviços que já havia feito. Senhor dos martelos.

Contando menos de duas horas para o fim da história, Disciple embarcou no ônibus e voltou para sua casa, com um sorriso no rosto e uma lembrança na memória. Por fim seria capaz de se tornar líder de alguma coisa, repousar numa posição superior a alguém, comandar alguém, sentir o gosto do poder. Mal ele conhecia o futuro. Mal o futuro conhecia a si mesmo.

O último caminhão posicionou-se no norte da ilha, perto do atracadouro. Seis mergulhadores desceram pela lateral rochosa e encontraram seus alvos com relativa facilidade. Sem demora, emergiram, em conjunto, tais quais atletas. Um simples sinal. Um telefonema foi feito.

- Sim, Htsiel, pode fazer o pronunciamento e estamos feitos. Que nossas carcaças apodreçam em paz e nossos nomes sejam lembrados por toda a eternidade como os protetores do novo mundo. Que Disciple entenda o recado, finalmente. – Dizia a voz rouca de Avraham, em tom solene e grave.

- Um instante. Deixe Ré se pôr pela última vez. Ele tem o direito de se despedir, afinal, não mais o veremos. Encontraremo-nos com o fim da história, finalmente. A última página. Aprecie o céu colorido. Sinta-se plenamente envolvido pela vida, pela última vez, sinta-a beijar teus lábios e abraçar teu corpo. Sinta a vida como nunca sentiu. Ame-a, deixe-a amar-te. Viva-a. Respire fundo e feche os olhos. É agora. – A voz de Htsiel esvaiu-se pacífica e suavemente. Era chegada a hora. Um simples movimento. Um dedo e um botão. O fim.

O leitor mal deve entender o que se passou. Bem, os Easter Bunnies implantaram bombas de porte médio, projetadas para destruição em grande escala, sob a ilha que habitavam. O Sol se pôs e Htsiel desejou observar, apreciando sua última visão antes da morte. É quando finalmente decide por apertar um pequeno botão em seu bolso e a ilha começa a estremecer e desmoronar, abrir-se em partes e afundar. Uma cidade inteira engolida pelo oceano.

A morte de – aproximadamente - um milhão e duzentos mil pecadores, mentirosos, enganadores, monstros. Demônios, como chamaria Azkriel. E, para ele, o mundo foi salvo. O mundo também concorda, os Easter Bunnies morreram, o mundo se sente salvo. Disciple chora ao ver as imagens do território em chamas e submergindo. Um velho império cai para que um novo império nasça.
Ass.: Igor Livramento


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Easter Bunnies - Capítulo 03: Vida


         - Não é fácil definir uma teoria que compense as dúvidas, especialmente para nós, os leigos. Contudo, e isso eu lhe garanto, será de fácil entendimento daqui para frente. Siga-me mentalmente e peça a parada sempre que precisar. – Dizia Azkriel, sorridente.
         Sua alma se regozijava em infinda alegria. Um garoto, finalmente, desejava saber o que ele – e somente ele – sabia. Ninguém do grupo se prestava a escutar seus longos discursos sobre a vida, a morte, o universo, Deus e tudo mais. Disciple, em compensação, amava tanto seu mestre que roia as unhas de expectativa, aguardando as descobertas.
         - Se a Grande Explosão estiver correta, muito do que pensamos e conhecemos já estará decifrado, sem grandes dificuldades. Isso é uma problemática de cosmologia. A cosmologia lida com o surgimento, o dito nascimento, e a formação do universo. Mas nem tudo são flores. Eu mesmo tenho um íntimo sentimento de que o universo sempre foi assim. Sempre existiu. E sempre quer dizer: sem começo nem fim. Difícil definir como isso pode ocorrer, mas eu aceitei muito bem em meu coração, no íntimo dos sentimentos. – Grave silêncio sucedeu e os olhos questionadores do jovem indicavam uma curiosidade bizarra e satisfatória.
         - Como eu cheguei nisso? Anos de vida. Longos anos de vida. No princípio eu acreditava num pensamento interessante, não muito divergente da ciência, mas que tinha pontos, pequenos pontos, os quais muito me incomodavam. O nome da junção desses pontos é Deus. Ou Jeová, ou Javé, ou YHVH, ou Já, ou Allá, ou Ein Soph, ou qualquer coisa do gênero. – Azkriel sorriu.
         Disciple também sorriu. Estava contente com o aglomerado informacional que seu tão querido pai – autodeclarado – possuía. Ele era realmente um gênio, ou um monstro. Não importava o que fosse, era o rei dos reis para o ingênuo adolescente.
         - Não é difícil se ocupar pensando na vida. Nada difícil. A vida como a compreendemos é riquíssima em dúvidas ainda inexplicadas ou, ao menos, permanentemente irresolutas para a maioria de nós. Maioria tola que não – que jamais – deseja o conhecimento. O saber é, provavelmente, a melhor informação que pode adentrar sua vida e constituir seu ser. O melhor de tudo isso? Você decide o quanto quer e a qualidade que deseja. – Mais um silêncio se formou, nosso heroi havia decidido por um copo d’água.
         - Se a Grande Explosão estiver correta, nós existíamos há, aproximadamente, 14 bilhões de anos, num aglomerado de matéria extremamente condensada e aquecida. Nada muito bonito? Eu acho lindíssimo, mesmo que não seja minha crença mais ferrenha. Todos nós, lá, inanimados, prontos para sermos expelidos em diversas direções a tempos iguais ou diferentes, resultando em tudo que observamos hoje, ou já foi observado em algum momento do passado. Você poderia ser uma Estrela de Neutrons, agora. Você poderia ser um meteorito, ou um dos satélites naturais de Saturno. Ou simplesmente poderia ser Hidrogênio perdido por aí, na imensidão escura. Entretanto, por uma série de pequenos passos do acaso, sutilmente estruturado, mas não completamente, você está aqui e você está vivo. Sim? – O prodigioso armamentista havia erguido sua destra em sinal de interrupção.
         - Tudo bem, você explicou várias coisas que eu já sabia e algumas poucas novidades bem divertidas. Por que você disse que estou vivo, em vez de dizer que sou vivo? Mamãe pode ser advogada, mas tenta me enfiar umas crenças católicas nada divertidas. – e silenciou com pesar, sentindo uma pontada de culpa por reclamar da própria progenitora. – Indagou Disciple, sem hesitar.
         - Por quê? Porque um dia você estará morto, assim como eu e todos os entes viventes daqui e de qualquer outro lugar do firmamento. Eu mesmo tenho minhas contradições lógicas a esse tema. Mas o que fazer? Ninguém disse que a realidade é logicamente consistente. Ninguém disse que o mundo, os céus e os mares fazem sentido. É apenas uma suposição humana acreditar que a lógica pode ditar os parâmetros da realidade. Há, mesmo, leis da física que contradizem a intuição lógica comum. Talvez não sejamos capazes de abranger em nosso tempo de vida, ou em nossas limitadas mentes, uma lógica muito maior, mais complexa e rica, que englobaria tudo que existe e mesmo aquilo que inexiste. – Lenvantou-se da cadeira, nosso protagonista, esticando os braços e movimentado muito bem os joelhos.
         - Como é bonito o céu. Já reparou nos tons azulados do alto infinito? Microlentes gravitacionais e polarização da luz. Há quem diga que acabei de destruir a beleza do céu. Eu os mando pro inferno. Acabei de adicionar ainda mais beleza ao céu, porque agora sei os motivos dele ser assim e de funcionar como funciona. Sei até que ponto posso reproduzi-lo, imitá-lo, modificá-lo, etc. Indo de encontro ao pensamento medieval, ainda vigente em nós, ocidentais, o conhecimento não é algo ruim, negativo. Muito, mas muito mesmo, pelo contrário. É o que pode haver de mais magnífico neste mundo. Somos todos produto do conhecimento. Se outro pensamento meu estiver certo, ou melhor, um pensamento que aceito de alguns cientistas, então somos todos, literalmente, aglomerados organizados de informação. E isso nos tornaria ainda mais apreciáveis como obra do acaso, em detrimento doutros pensamentos. – Azkriel silenciou.
O desconhecido gênio caminhou até o filtro, girou a torneira e encheu seu copo com mais água em temperatura ambiente. Bebeu tudo num único gole, saciando-se.
- Certa vez estava eu, observando uma pequena caixa roxa, contendo clipes. – Pausou e fez longa inspiração. – Fixei meu olhar, por algum motivo que agora não recordo, num ponto próximo à caixa. Um ponto muito escuro contido no plano da mesa de madeira sobre a qual estava disposta a caixinha. Lentamente os pensamentos se sucediam e aprofundavam. Incrível e animadora distorção visual se produziu em minha compreensão e já a caixinha parecia bidimensional. O mundo é, definitivamente, lindíssimo. – Parecia deixar-se levar por uma correnteza macia e agradável.
         - Aquela é uma das crenças semirreligiosas sobre as quais você me falou antes de virmos pra cá? – Questionava o discípulo e filho de criação do herói.
         - Sem dúvidas. Todas elas. Pensando agora eu prefiro que hajamos explodido há alguns bilhões de anos, a deixar com que o espaço-tempo exista desde sempre. É realmente mais legal e divertido, porque concede exclusividade. Caso o espaço-tempo exista desde sempre e continuará a existir sem fim, um infinito de possibilidades ocorreu, ocorrerá e ocorre. É até possível unificar. Uma expansão demasiada, como numa mola, gera uma contração excessiva, sendo assim um processo autossuficiente e eterno. O problema da criação não me cabe, nem agrada saber. Não creio necessário algo fazer surgir esse processo, mesmo porque, se é eterno, então é eterno, não teve origem, ou causa primária que o valha. Simplesmente sempre foi e sempre será assim. É até mais confortável e justo que um ser sem limites comandando, a seu bel-prazer, nossas existências medíocres. – Bocejava Azkriel, demonstrando a má respiração que cultivava diariamente.
         Ambos os cérebros, já cansados, resolveram caminhar pelo bairro. Ao retornarem, tomaram seus banhos, cozinharam um bom frango ensopado e um delicioso macarrão integral, escovaram seus dentes e deitaram para aguardar o amanhecer seguinte. O frio daquela noite era irreconhecível sob as grossas cobertas de posse de nosso protagonista. E o tempo fez do ato de sonhar um reino externo ao mundo.
Ass.: Igor Livramento

terça-feira, 3 de abril de 2012

Criança sempre criança


Quando eu era criança sonhava em ser maior, em poder fazer aquilo que os adultos faziam e que eu era privada de uma forma que me magoava, docemente, mas magoava. Hoje, eu estou feliz por estar onde estou e ser quem eu sou. Eu cresci! Estou viva! Se eu não tivesse crescido, não conheceria meus amigos de alma que conheci, não aprenderia nada do mundo, não conheceria outras vidas como se fosse a minha própria... Não decidiria meu futuro, nem sonharia com ele... Eu sou grata pela vida, a idolatro mais que tudo, pois sem ela nada do que eu amo eu amaria. Mas... Às vezes eu sinto saudades da época em que eu não sabia as impurezas do mundo, não sabia das responsabilidades, nem pensava no dia seguinte; Que vestia minhas barbies e achava que aquilo estava decidindo o mundo. Sinto falta da época em que o parquinho era o melhor e maior lugar que eu podia imaginar estar, onde os problemas eram a difícil decisão de que sorvete tomar, onde eu sentia o cheiro da liberdade, que não existia, mas que eu achava estar presente nas minhas invenções e nos amigos imaginários que me acompanhavam sempre.
Sou feliz por ter crescido, mas olho para o passado com saudade e certa melancolia. Lugares me levam de volta ao passado, cheiros me lembram de brincadeiras. Talvez seja um lado artístico que faz tudo parecer cena de filme... Mas é tão real, que eu até esqueço.
A vida é mesmo louca. Um dia você nada sabe no outro tudo quer no outro tudo pode e no outro precisa conquistar loucamente. Mas me diga quem não sente saudade daquilo que foi? Que fez! Aquilo que fez bem, que aproveitou e curtiu.
Você se torna adulto e outras loucuras se passam pela sua mente e se tornam seu desejo. Mas ambicioso certamente, mas sempre seu. As lembranças serão sempre uma eterna companhia. Nada é esquecido, tudo é arquivado.
Isso é o bom de viver.

 Ass: Beatriz Sá

domingo, 25 de março de 2012

Easter Bunnies - Capítulo 02: Quem São Os Anjos



         A princípio suspeitava-se que Azkriel fosse um megalomaníaco, devido a seu comportamento autoritário, seu complexo messiânico e suas falas e pensamentos sobre um novo mundo. Contudo, os Easter Bunnies perceberam, pelo passar do tempo, que o segundo membro mais jovem do grupo não estava errado, tampouco em desacordo com os objetivos da equipe. Grande estudioso das ciências humanas, Azkriel era um empreendedor de altíssimo nível, talvez um dos maiores empresários que nosso país miserável já teve a capacidade de fazer surgir. Mesmo entre tão caros amigos, ele ainda era respeitado por sua gigantesca sabedoria. Não somente conhecimento, porque não basta ler, conhecer e entender para fazer valer algo que se sabe, é preciso aplicar o conhecimento adquirido, enriquecendo e melhorando as experiências. Nisso, sem dúvidas, Azkriel foi um mestre. Planos e mais planos sem falhas, mas jamais se admitiu perfeito arquiteto de mortes, sempre reunia o Conselho dos Altíssimos, mesmo quando seu plano já era estritamente perfeito, ausente de falhas quaisquer.

         Muito bem ele sofre e chora, dentro do apartamento de Júlia, dentro do banheiro, com os dois cadáveres extremamente mutilados perto de si. O sangue pinta os azulejos de carmesim, impedindo qualquer negação que venha a ser dita sobre o assassinato. Todavia, não se trata de um ato qualquer, o fenômeno tomará sua real forma, esplendorosa, quando chegar a hora.

         A polícia utiliza-se de megafones e os transeuntes param para observar toda a dor que permeia a alma de nosso protagonista angelical. Aí reside outra dúvida: ele, além de realmente muito bonito, é rico, inteligente e carinhoso. Por que essa vagabunda o deixou? Vadias nunca deixarão de ser vadias, definitivamente. Vocês sabem do que falo leitoras e leitores.

         Abandonado em um estado de desolação e vacuidade, sua alma já não mais residia em si, havia abandonado o corpo para aventurar-se nas loucuras da inconsciência. Desejos reprimidos, sonhos esquecidos, vida e morte súbitas, loucuras mil. A paixão pelo saber não fazia mais sentido, tudo, em verdade, perdia o sentido. Somente a fantasia valia naquele momento e ele bem sabia disso.

         O som das pancadas na porta atormentou sua mente e, pela última vez, Azkriel, a entidade psicofísica esteve ali, definida em seu meio cultural, para abandoná-lo de vez. Três policiais adentraram o imundo apartamento, manchado de ódio e violência, mas jamais arrependimento. O primeiro foi morto por uma facada no rosto, o segundo teve um pedaço rosto arrancado. O terceiro por sua vez foi capaz de matar nosso herói moderno com sete tiros pelo corpo todo. E ainda na hora da morte Azkriel sorriu, fechando os olhos calmamente em meio à dor e sentindo-se bem por estar capaz, finalmente, de não precisar encarar mais qualquer forma de sofrimento que a vida terrena acarreta.

         No segundo dia em que seu corpo estava para ser devolvido a possíveis familiares ele desapareceu e foi velado, secretamente, na antiga base do, há muito extinto, grupo de assassinos. Era a hora dos Easter Bunnies juntarem-se novamente e cumprirem sua última promessa feita ao The Head. Ele, o grande gênio qual encabeçou as obras-primas da equipe. Ele, o grande mestre qual estabilizou todos juntos e fortaleceu as amizades. Ele, o único que se manchou apenas duas vezes de sangue, onde apenas uma das vezes foi a serviço do grupo, constante dos seus primórdios, quando nem mesmo um nome ele tinha. Ele, o homem que será lembrado para sempre, com ódio por muitos, e amor pelos poucos que compreenderam suas ações e decisões.

         Htsiel reuniu os Easter Bunnies no antigo covil onde toda a vilania, toda a maldade poderia ser encontrada por olhos comuns, mas apenas um coração sofredor e sincero, purificado, um coração de anjo acharia ali a verdadeira salvação para esse mundinho medíocre. Assemelhava-se a um estacionamento para caminhões de grande porte. As Baleias, como diria Azkriel enquanto vivia. Htsiel abriu o jogo, em presença de todos, e solicitou que trouxessem o conteúdo das gigantescas carretas. Bombas de grande porte, alimentadas por material radioativo.

         - Ah! Nada como os excelentes serviços prestados pelo Disciple. Quanta alegria desse garoto! Faz honra aos dias que passou junto do Head. Que saudades... – Proferiu, com notório saudosismo, o antigo parceiro de Azkriel, Avraham.

         Avraham, um monstro em combate corpo-a-corpo e à distância, utiliza sempre dos serviços do prodigioso jovem chamado de Disciple.

Disciple é um garoto que passou sua juventude ao lado de The Head, compartilhando, assimilando, internalizando seus conceitos, suas concepções, suas interpretações divinas de vida, morte, justiça, amor, ódio, violência, paz, sua visão política, suas crenças semirreligiosas, entre tudo mais que uma pessoa pode compartilhar. Além de ser uma réplica mais jovem do líder do grupo, também é um gênio da engenharia militar. Sempre serviu à equipe sem recusa e sem hesitação. Produziu as melhores criações em termos de armamento, do levíssimo ao pesadíssimo, sempre oferecendo preços realmente baixos por considerar Azkriel como seu pai de criação e eterno mestre.

- Como Azkriel costumava dizer: “alguns me chamarão de Deus, outros de Demônio. Uns de anjo e outros de aparição. Apenas os verdadeiros chamar-me-ão pelo nome de criação, a santificadora luz: Azkriel.” – terminava, assim, Htsiel, a primeira etapa dos planejamentos dos Easter Bunnies para vingar a morte de seu amado amigo.


Ass.: Igor Livramento

terça-feira, 20 de março de 2012

Easter Bunnies - Capítulo 01: O Começo Do Fim



         Estava o garoto, tristemente, desocupado durante o horário de trabalho e observava o twitter da ex-namorada. Lendo a descrição do perfil de usuário ele se recorda das bandas favoritas dela, de sua comida favorita e observa, ao final, uma visão não menos rude que um ataque terrorista: “E sou do Daniel”.

         - Um instante! – pensou ele. – Quando estavas comigo, vadia, não eras “minha” porque não mais vivemos numa escravidão e as pessoas não pertencem umas às outras como propriedades, visto que vivemos e sobrevivemos perante a valorização da individualidade de cada ser humano, respeitando seu universo próprio e pessoal, criando e desatando laços aqui e ali. – desenvolvia o pensamento dentro de si mesmo.

         É então que ele decide buscar o perfil de usuário do novo namorado e a merda está feita. Deus sabe do que falo.

         - E gosto de tuhn tcha tcha tuhntuhn tcha?! Quem porras este pedaço de bosta pensa que é? Assim não vai dar, não vai rolar. Porra! Que vadia! Ela me trocou... Por isso!? De jeito maneira! Isso não vai ficar assim. Não mesmo. – remoia-se em pensamento sombrios e cruéis.

         Há de se notar que ele não é um garoto normal, seus sentimentos não condizem com os padrões da maioria das pessoas e isso o torna meu objeto de narração. Faz-se aqui o milagre da fantasia e nomeia-se o garoto por Azkriel. É seu nome de enredar. Se não o é, passará a ser.

         Ainda três horas da tarde e nosso protagonista adentra o apartamento de sua ex-namorada, aproveitando a saída dela. Ela o cumprimenta e diz que não demorará em retornar. Ele apenas sorri com os lábios, sem expor os dentes e aproveita-se do momento. Quando a porta se fecha ele sorri de forma obscena, vívida, maldita, um sorriso esgarçado e odiento.

         Voltando pelas horas da noite, alegremente, a dona do apartamento encontra sangue no chão da sala e sobre ambos os sofás. Nada se vê na cozinha. Levantando os olhos para o corredor ela observa seu ex-amante parado, com um olhar vago, distante e os lábios trêmulos. Suas mãos estão banhadas em sangue e possuem pequenos pedaços do concreto das paredes enfiadas nelas. As paredes possuem grandes buracos e rachaduras profundas, demonstrando a força sobre-humana do garoto.

         - Yuki! – a jovem corre desesperadamente em direção ao quarto, buscando encontrar seu cãozinho com vida.

         Doce engano. Nosso herói o havia aberto com as próprias mãos, espalhando suas vísceras pelo chão. O olhar de sofrimento do animal era pouco notório. Júlia volta correndo, enfurecida, a fim de enfrentar nosso homem e monstro. Porque eu sei que muitos de vocês o chamam de monstro ao saberem do fim trágico que ele deu ao animal. Seus parciais de merda.

         Enganada pela fúria ela o golpeia a face com uma tapa. É o fim. Azkriel sorri como um demônio, seus olhos avermelham-se e enegrecem-se. O verdadeiro fim chegou. Nem mais um amanhã para usar de desculpa. Nem mais um novo amor para esquecer um antigo.

         Desfazendo a garota em trapos de uma pessoa, ele a espanca com tamanha violência que seu corpo desmaia e acorda repetidas vezes, durante a série de socos desferidos contra seu rosto e torso. Gentilmente segurando-a pelas canelas, rompe ambos os joelhos para trás em fraturas expostas, contrárias ao movimento natural. Ele então arranca o olho direito da garota, mastigando-o como um animal esfomeado. O frágil corpo insiste em permanecer acordado e vivo, fazendo-a gritar incessantemente, enriquecendo a maldade de nosso protagonista. Num ato de puro amor ao ódio ele morde a mão dela, expondo mais alguns ossos ao ar ambiente.

         É então que o grande espetáculo da miséria humana toma forma. Arrastando o corpo de sua segunda vítima, sua ex-namorada, até o banheiro, ela é capaz de avistar, mesmo em meio ao próprio sangue e sofrimento, o corpo de Daniel, seu atual namorado. Chorosa, ela identifica o corpo do atual amante amarrado de ponta-cabeça, com diversos cortes sobre o torso, pernas, braços e rosto. O namorado sorri ao ver o objeto de sua paixão, porém o dono da situação usa-se de um alicate para arrancar-lhe alguns dentes, impedindo-o de sorrir em meio a tamanho sofrimento.

         - Eu sou seu Deus agora! Eu sou a porra do amor que você esmagou quando beijou aquele filho da puta na minha frente e disse que tudo tinha acabado! Tá vendo?! Você tá vendo a fonte de toda a força que flui no universo! Daquilo tudo que vive e que morre! Eu sou Deus! – e gargalhava como um maníaco, afinal é um maníaco, abusando do controle da situação sobre ambas as vítimas.

         Assim, fria e indiferente, a noite se acabava, com os vizinhos do andar logo abaixo, o segundo andar, fazendo uma bela festa, com música alta a noite inteira, impedindo os gritos de serem percebidos. Deu-se assim o começo do fim. Azkriel não mais pertence aos Easter Bunnies enquanto membro vivente, mas isso... Contarei só no próximo capítulo.

Ass.: Igor Livramento

sábado, 3 de março de 2012

A Luz



Querida Luz,

 Estou com medo, um pouco sem forças também. Sinto uma espécie de frio interior que não passa com cobertas, nem casacos, nem nada quente que eu possa imaginar. É estranho, eu não sei bem o que pensar. Tantas coisas se passam em minha mente, lembro de momentos de quando eu era bebê! Isso não é louco? Pensei que eu não tinha essa capacidade, mas parece que minha memória está a fim de relembrar as coisas. Eu realmente vivi uma vida boa, querida.

Lembro-me agora das folhas que eu pegava pelas ruas do antigo bairro em que eu morava... Eu era tão criança! Tão pequeno! Tão sonhador... Lembro da primeira garota que eu me apaixonei. Era engraçado! Uma sensação de poder! O suor escorria pelas minhas mãos quando eu a avistava de longe chegando ao colégio. Meu coração parecia um carro sem freio. Minha alma gelava, mas eu me sentia quente! Doce primeiro amor... Lembro-me com mais intensidade do meu segundo amor, porém eterno. Margarida! A mulher de minha vida... Com ela, além de eu sentir essas coisas do primeiro amor, eu sentia uma ternura, uma vontade louca de guardá-la em algum lugar e apreciá-la toda noite, como se fosse uma boneca que eu cuidava carinhosamente.
Com ela descobri o que era amar, o que era se apaixonar, o que era crescer nessa vida. Formei uma família, tive lindos filhos, netos, bisnetos... Infelizmente, eu há vi partir. Algo que eu não gostava de imaginar. Não consigo descrever o que senti naquele momento. Foi algo ensurdecedor. Uma voz gritando em meus ouvidos! Era a voz da dor. Uma parte de mim se foi com minha Margarida. A minha metade partiu junto a ela. Mas eu continuei nesse mundo, e vi mais um neto nosso nascer. Sentia ela ao meu lado, chorando, emocionada pela glorificação da nossa família...

Eu sempre fui um homem trabalhador, não sei como, mas consegui dar o que prometi a minha mulher, e meus filhos. Aquela família feliz! Tão feliz... Claro, brigas aconteceram como em qualquer família... Mas sempre o amor falava mais alto.
Agora, eu sinto o cheiro das laranjeiras do meu jardim quando era menino, sinto o cheiro da chuva vindo, sinto o gosto dela molhando os gramados...
Agora me lembro do meu casamento, da minha doce lua de mel... Lembro do nascimento de Violeta, nossa primeira filha. Sinto uma lágrima correr pelo meu rosto. E um sorriso se abrir nos meus olhos. Isso é louco! Ó céus!
Sinto a mão de alguém na minha mão. Sinto o beijo de alguém no meu rosto. Sinto a presença dos meus filhos...
Sinto-me fraco, mais fraco...
Sinto-me feliz! Com uma vida completa.

Tudo bem, querida Luz, eu estou entendendo... Sei que já cumpri meu tempo, e formei meu legado.
Eu vejo! Vejo alguém agora vindo em minha direção, alguém pura, com um vestido vermelho, e uma aparência serena. Ah! É meu amor... Minha Margarida! Sinto meu coração ficar mais fraco, e a mão dela chegar a minha mão. Como em um túnel louco vejo milhares de fotografias, da minha própria vida, passando diante do meu cérebro. Reconheço cada momento. Minha memória se permitindo sua última utilidade! Sinto a mão de Margarida na minha! Pouco sinto a mão que sentia antes em minha mão, e o beijo que sentia antes em meu rosto... Vida plena, doce vida.

Estou pronto. Leve-me, querida Luz.

Ass: Beatriz Sá

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Noutra Noite Qualquer



         O vento soprava impiedosamente. A cabeça careca, lisa, o corpo recoberto por roupas simples, calça larga, sapatilhas nos pés, moletom a cobrir do tronco para cima, sobreposto a uma camiseta preta simples, de mangas longas. Ele adentrava o bar com um semblante pacífico e tranqüilo. Todos os barbudos, os carecas, ambos musculosos, observavam o jovem cerca de dez anos mais novo que a maioria ali presente.

         - Quem é Gabriel? – Pronunciou-se, finalmente, quebrando o silêncio.

         Um homem grande, de musculatura desenvolta, com algumas tatuagens de caveiras em chamas e santos espalhadas pelo corpo levantou-se, detrás do balcão. Havia um lenço preso à sua testa, qual cobria a falta de cabelo, visivelmente compensada pelo excesso de barba.

         - Sou eu, pequenino. O que você quer? – Disse com a voz arranhada do uísque sem gelo qual acabara de beber.

         - Eu não estou nada feliz com que fizeste Gabriel, ao meu irmão. Ele está hospitalizado por tua causa. E eu bem sei, via relatos dos presentes na ocasião, que tu estavas completamente consciente. Poderias ter evitado a tragédia. – Proferiu o garoto careca, de rosto liso, barba feita. Sua voz matinha um tom calmo e pacífico, quase amigável e seus olhos dificilmente demonstravam a vingança esquentando e queimando seu sangue, internamente, em sua disciplinada mente.

         - Você fala demais, pirralho. Nem tem idade para entrar aqui. Rala peito ou o couro vai comer. Anda! Anda! – Gritava o homem, para que sua voz fosse escutada por todos, enquanto fazia sinais de dispersão para o jovem.

         - Sei que vingança é algo ruim, todavia eu quero reclamar tua briga com meu irmão, Gabriel. Dar-te-ei a chance de me atacar sete vezes, das quais todas serão defendidas. Terás sete chances de desistir e pedir perdão. – Continuava muito calmo e seguro de si.

         - Haha! O pivete quer uma surra! Rapaziadas só observem! – O brutamonte correu na direção do jovem e desferiu um soco com o braço esquerdo, levemente curvado, qual o garoto defendeu magnificamente.

         No soco seguinte, utilizando o punho direito, o garoto apenas esquivou, movendo sua cabeça para o lado. O homem então subiu a canhota, numa tentativa frustrada de acertar o queixo do garoto. Nosso jovem empurrou a canhota do velho homem com ambas as palmas, fazendo com que ele acertasse a si mesmo, ficando assim com o nariz sangrando.

O homem manteve uma distância segura, limpou o nariz e chutou com a perna direita, que foi impedida por outro movimento de palma aberta, da mão esquerda do mestre em certa arte marcial, qual a ergueu e moveu-se para frente, derrubando o velho sobre uma mesa com muitos copos e garrafas, fazendo-o cortar-se severamente. O sangue escorria do rosto e do tronco e braços cortados do homem. O garoto deu as costas e retirou-se.

O vento continuou a soprar impiedosamente.
Ass.: Igor Livramento