sábado, 25 de fevereiro de 2012

Noutra Noite Qualquer



         O vento soprava impiedosamente. A cabeça careca, lisa, o corpo recoberto por roupas simples, calça larga, sapatilhas nos pés, moletom a cobrir do tronco para cima, sobreposto a uma camiseta preta simples, de mangas longas. Ele adentrava o bar com um semblante pacífico e tranqüilo. Todos os barbudos, os carecas, ambos musculosos, observavam o jovem cerca de dez anos mais novo que a maioria ali presente.

         - Quem é Gabriel? – Pronunciou-se, finalmente, quebrando o silêncio.

         Um homem grande, de musculatura desenvolta, com algumas tatuagens de caveiras em chamas e santos espalhadas pelo corpo levantou-se, detrás do balcão. Havia um lenço preso à sua testa, qual cobria a falta de cabelo, visivelmente compensada pelo excesso de barba.

         - Sou eu, pequenino. O que você quer? – Disse com a voz arranhada do uísque sem gelo qual acabara de beber.

         - Eu não estou nada feliz com que fizeste Gabriel, ao meu irmão. Ele está hospitalizado por tua causa. E eu bem sei, via relatos dos presentes na ocasião, que tu estavas completamente consciente. Poderias ter evitado a tragédia. – Proferiu o garoto careca, de rosto liso, barba feita. Sua voz matinha um tom calmo e pacífico, quase amigável e seus olhos dificilmente demonstravam a vingança esquentando e queimando seu sangue, internamente, em sua disciplinada mente.

         - Você fala demais, pirralho. Nem tem idade para entrar aqui. Rala peito ou o couro vai comer. Anda! Anda! – Gritava o homem, para que sua voz fosse escutada por todos, enquanto fazia sinais de dispersão para o jovem.

         - Sei que vingança é algo ruim, todavia eu quero reclamar tua briga com meu irmão, Gabriel. Dar-te-ei a chance de me atacar sete vezes, das quais todas serão defendidas. Terás sete chances de desistir e pedir perdão. – Continuava muito calmo e seguro de si.

         - Haha! O pivete quer uma surra! Rapaziadas só observem! – O brutamonte correu na direção do jovem e desferiu um soco com o braço esquerdo, levemente curvado, qual o garoto defendeu magnificamente.

         No soco seguinte, utilizando o punho direito, o garoto apenas esquivou, movendo sua cabeça para o lado. O homem então subiu a canhota, numa tentativa frustrada de acertar o queixo do garoto. Nosso jovem empurrou a canhota do velho homem com ambas as palmas, fazendo com que ele acertasse a si mesmo, ficando assim com o nariz sangrando.

O homem manteve uma distância segura, limpou o nariz e chutou com a perna direita, que foi impedida por outro movimento de palma aberta, da mão esquerda do mestre em certa arte marcial, qual a ergueu e moveu-se para frente, derrubando o velho sobre uma mesa com muitos copos e garrafas, fazendo-o cortar-se severamente. O sangue escorria do rosto e do tronco e braços cortados do homem. O garoto deu as costas e retirou-se.

O vento continuou a soprar impiedosamente.
Ass.: Igor Livramento

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Consertar



Em um dia, tão normal quanto os outros, fazendo o que eu mais amo fazer na vida, eu aprendi que todos vêm ao mundo para realizar algo. “Os relógios servem para informar o tempo, o trem serve para levar as pessoas ao seu destino... todos vêm ao mundo para consertar algo ou alguém”. E não é que é mesmo? Dar utilidades! Eu achava que sabia disso sabe? Mas descobri naquele momento que tinha uma visão tão pequena disso... Eu sei que todos chegam ao mundo para mudá-lo. Infelizmente pro bem ou pro mal, mais uma escolha a se fazer, como tantas outras, mas aprendi que é muito mais que isso. Eu já me perguntei muito para que “conserto” eu estava aqui, para quem ou o que eu daria vida. Existem aqueles que vieram mostrar o quanto o mal é desprezível e que conseqüências ele pode gerar, aqueles típicos que vieram mostrar o que é tristeza, existem aqueles que vieram apenas para lutar ou aqueles que vieram dar vida as maquinas... Existem aqueles que vieram dar vida aos livros, também àqueles que vieram dar a vida aos oceanos... Existem aqueles que vieram ajudar a nascerem mais vidas que futuramente descobrirão o que farão... Existem aqueles que vieram dar vida ao sonho de alguém, e conseqüentemente aqueles que imaginaram os sonhos, com os olhos abertos, ou até mesmo fechados... Aqueles que ajudam o sonho a crescer e aqueles que dão a direção a ele. Descobri que são muitas as verdades e muitas as mentiras. Mas que podemos consertar! Por que existiriam as duas se não existisse o poder de mudar? Os animais, as flores, os cheiros, a chuva... Todos consertam seu habitat, dão vida, dão cor, dão sensação, refrescam... Nada vem completo e certo... Nós somos isso, somos todo esse poder, que é tão pequeno diante do universo, mas tão grande diante de nós. Não é curioso?

 Ass: Beatriz Sá

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Vácuo


Densa noite adentrava, rasgando o céu em escuridão pálida. Prateado é o hipnotizante olhar dela, capaz de derrubar o mais alto dos anjos, capaz de roubar a alma do mais forte dos homens. Suas acompanhantes e quase eternas amigas reluziam distantes, fazendo da imensidão um amontoado de obscuro e recortes de brilho.

Quase que me esqueço das horas e deixo Cronos fugir-me ao controle, levando consigo toda a razão de ir e vir. Toda a poesia que só um coração quebrado poderia caçar e alimentar feito um lobo odiento e solitário, maculado como as chagas que crucificaram a carne de um mestre e amigo.

         Nunca me prometa amor, meu amor. Sei que és humana e, portanto, falharás em cumprir tuas palavras. Mesmo o doce de teus lábios acabará um dia, como o vento que dissemina o sexo das flores, dentre as flores.


         A falta de coração no homem. Cresço distante do centro.

Ass.: Igor Livramento

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Emaranhado




É madrugada e o silêncio é absoluto.
Não queria admitir, mas me sinto sufocada. Há algo querendo liberdade e me sinto incapaz por não saber o quê.
Quando foi que isso começou? Quando foi que eu comecei a ser menos minha e mais tua? Meus segredos estão tão emaranhados aos teus quanto nossas pernas sob o lençol. Meus olhos precisam mais dos seus do que meus pulmões precisam de ar, isso é assustador.
Faz-me estremecer, querido.
Deitado ao meu lado parece tão domável, tão inofensivo. Engana-se quem pensa ao contrário, afinal, mostraste teu lado domável, inofensivo e cheio de falhas a mim, confiaste esse teu lado tão frágil à minha pessoa, mostrando muito mais de ti do que jamais imaginei.
Olho para frente e sorrio. O armário antiquado voltado de frente para cama, lembra-te? Você quem confessou que queria um quarto à moda antiga, lembro do teu sorriso doce ante minha aceitação. Quem resistiria, no entanto?
As portas escancaradas e espelhadas espelhos que todavia foram desejos meus revelando o caos interno. Tua camisa com meu cheiro, tua gravata presa ao meu vestido, teus sapatos se confundem aos meus tênis (estes errôneos tênis que ainda revelam a menina dentro de mim).
Nossa vida anda tão unida quanto nossas roupas, me sinto feliz, já lhe disse. Mesmo que as lágrimas se rompam de meus olhos algumas vezes e que gritos saiam de meus lábios, me sinto feliz.
Prometi a ti, não foi? São fases, são novas cores sendo pintadas em minha parede, são novas ilustrações do teu rosto e desses teus olhos, novos ângulos, novas facetas que estudei com tanto esmero.
Sinta-te orgulhoso, meu rapaz, fizesse florescer em minha algo que nenhum outro conseguiu.
Não há maneira de fujir.
Ainda guardo tua inscrição de Chico Buarque (“Se nós nas travessuras das noites eternas, já confundimos tanto as nossas pernas. Diz com que pernas eu devo seguir.”) mostrando o quão sensível foi, ao notar-me com medo de prosseguir.
Sufoco esdrúxulo esse que sinto, não é? Sufoco de medo que nunca cessa, de saudades que nunca acaba e principalmente, meu amor (preste atenção), de feridas que tu não me causastes e que nunca sararam, mesmo sendo tu o anjo que é, entenda que existem certas cicatrizes que nunca secam e talvez eu seja mesmo alguém desse tipo.
Espero todos os dias, todos os segundos, todos os beijos e olhares que tu aceite esse coração marcado, essa alma falhada e que acima de tudo, meu querido, que tu me ame por inteira, ame meus defeitos e falhas assim como eu (absolutamente) amo os teus. Não tente me consertar a todo momento, vou me curando aos poucos, juro.
Basta que tu, nesta tua singularidade gritante aceite essa missão.
Porque em minha pluralidade sólida eu aceito cuidar de ti enquanto houver tempo ao meu corpo e eternidade à minha alma.
Enquanto houver voz a mim, juro lhe sussurrar ‘sim’ ao pé do ouvido; seja dia ou noite, quarta ou domingo, eu digo-lhe ‘sim’ de coração aberto e murros caídos.
Afinal, tu me tens desde que tenho um coração.
Sorria dormindo, isso mesmo meu rapaz, tenha bons sonhos.

Jeniffer da Rosa Rebelatto, Olhos de Menina.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Reflexo





             Sabe aqueles dias que você simplesmente para tudo que está fazendo para pensar na vida? Foi num desses dias que eu entrei no meu maior conflito interno. Ser feliz ou fazer a coisa certa? Claro que muitas vezes quando fazemos a coisa certa ficamos felizes, mas e as vezes que não? E as vezes que essa tal coisa errada é o que vai nos fazer feliz? Pensando nisso, eu escrevi essa história...




E lá estavam eles novamente, sorrindo uma para o outro, com aquele brilho no olhar, e eu aqui, observando de longe minha melhor amiga e meu melhor amigo (vulgo minha paixão) se relacionar, tentando fazer seu relacionamento um tanto estranho, mas que para eles funcionava, dar certo. Depois de se despedirem, Katherine passou por mim e sorriu, enquanto Benjamin ia mexer no seu armário.
Eu sei que eu não devia ir lá, mas mesmo assim eu não consegui me controlar, quando eu vi já estava lá sorrindo para ele.
_Oi Ben!
_Oi Alice, e ai?
_Você não vai acreditar, tirei 10 naquela prova!
_Eu falei que você ia se sair bem, parabéns! – disse ele me abraçando.
Ah, aquele abraço... Só de relembrar de como eram seus abraços (sim, “eram”, no passado) me bate uma nostalgia tão grande que nem consigo explicar. Eu me sentia a pessoa mais especial do mundo por ter ele em meus braços, e me sentia tão protegida quanto se tivesse com o super-homem do meu lado.
_É, eu também. – rimos. – Você vai ao luau hoje?
_Claro, você também né?
_Sim. Ai, droga, eu tenho que correr para a sala, essa professora é muito chata com quem chega atrasado. Tchau! – o abracei rápido e corri.
Entrei na sala e todos já estavam sentando. Mas é claro, todos sabiam como a Clarice era, e eu era a única idiota aventureira que arriscava entrar depois dela. Avistei um lugar perto das Anas (sim, o nome das minhas outras duas melhores amigas era o mesmo), e me sentei. Ainda respirando rápido, encostei na cadeira e comecei a lembrar do seu sorriso. Como um simples sorriso daquele podia me deixar tão extasiada? Comecei a sentir seu perfume ao meu redor, mas conhecendo o Benjamin não era coisa da minha cabeça, e sim bem provável que seu cheiro tenha ficado em mim.
_E nos temos que ver isso também né Alice? Alice? Ei!
_Ai! – uma bolinha de papel um tanto dura me acerta no braço. – Oi, desculpa, o que foi?
_Você não ouviu nada do que a gente disse? – disse a Ana C.
_Claro que ouvi.
_Ah é? Então o que estávamos falando? – perguntou a Ana P.
_Tá vocês me pegaram... – confessei. - Sobre o que vocês estavam falando?
_Sobre o luau de hoje, a Ana P não vai, e eu não tenho como voltar.
_Como se isso fosse mesmo um problema né? Você pode dormir lá em casa.
Não! Nós precisamos ir a essa luau, era mais um local que eu poderia vê-lo.
_É uma ótima ideia! Vou ver com os meus pais e te aviso depois. – sorri em resposta apenas.
Virei para a professora e tentei realmente prestar atenção, mas não conseguia, só conseguia pensar em como me sentia em relação ao Benjamin, eu não sabia o que fazer, e pior, sobre como eu me sentia extremamente mal por sentir isso por ele. Claro que eu sabia que a Katherine não amava ele, mas eu também sabia que eles não eram só amigos. Gostar de  alguém e não poder fazer nada em relação a isso é uma droga!


Ass: Júlia Martan

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pegue Um Pouco




            Talvez eu fosse o primeiro a notar que o mundo já não era mais o mesmo. Quiçá toda a tristeza transformara-se em alegria e nenhuma lágrima, mais, seria derramada. Considerando toda a deformação da beleza qual um dia fora minha – nossa – eu realmente deveria ter matado alguém, ou cometido suicídio.

            Sempre adorei prosa e poesia surrealista, não há muitas coisas neste mundo real – anti-romântico – que são tão reais quanto o reflexo, perturbado pelas ondulações. Meu quarto é pequeno e simples, então eu prefiro sair dele, como faço agora. Desço as escadas, o agradável odor de tinta, o cheiro molhado, úmido, sujo, a sensação de poluição visual-sonora – macia e doce sinestesia, como uma escova de rocha.

            Lá estava ele, um corpo forte com musculatura definida, fedendo abominavelmente, roupas desgastadas e sujas, fitando-a – minha progenitora – sensualmente ela dançava e deslizava as mãos por aquele corpo bruto e esteticamente apreciável, porém feio, brutalizado, maculado pelo acordo dos “belos corpos”. Beleza é como uma merda que aponta para o céu: há de se ver algo artístico nela, sem sombra de dúvidas.

            A lascívia daquele momento exalava permanentemente – como disse: permanentemente, para nunca mais sair dali... De lá... Minha infante memória afogou-se na tristeza dos olhos dos culpados e encarregou-se de trazer os anjos da morte à vida – a pornografia daquele momento exalava permanentemente, a violência da traição.

            Terminei de descer os degraus, Claudius tentou me impedir, mas já sabia que era tarde, tão tarde quanto o “tarde da noite”. Os doze discípulos reuniram-se ao redor do casal, vestidos em seus mantos negros, deixando seus rostos invisíveis para o inimigo deste mundo – o amanhecer dourado terá de chegar. Meus doze amantes – amantes de verdade, aqueles que amam – sacaram da espada e do pano, enquanto os corpos mundanos, humanos, carnais, deleitavam-se em jorros de gozo infindo. Mamãe abriu os olhos e se deparou com a lâmina brilhando sobre sua testa, descendendo velozmente, perfurando seu lindo rosto de quarenta anos tão brutalmente quanto aquele animal estúpido e pobre penetrava a vagina dela repetidamente. O destino dele não foi diferente, cortamos as mãos, depois os pés – tudo com aplicações cirúrgicas seqüenciais, para evitar a morte instantânea – por fim arranquei os olhos e os mastiguei e os engoli. Tinham sabor de sombra orgânica. Gargalhei repetidas vezes e tudo escureceu repentinamente.

            Acordei em minha cama, após desesperados sonho e sono. Verifiquei onde estava minha espada. Desci as escadas e, no percurso, escutei minha mãe gemendo, provavelmente estaria dando prazer a qualquer vagabundo bem dotado que a desejasse. Encontrei minha obra-prima no chão da cozinha, embebida em sangue fresco. Claudius guardava um sorriso horripilante no canto dos lábios e confessou-me ter sido muito divertido começar com o amanhecer dourado tão cedo. O amanhecer há de ser cedo, afinal, é ele que inicia tudo.

Ass.: Igor Livramento

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Masquerade




"Eu sempre acreditei em amor à primeira vista, é algo como comer a melhor sobremesa do mundo: você dá a primeira colherada quase que involuntariamente, e quando consegue detectar o sabor, você paralisa, fecha os olhos, movimenta a língua de modo que o doce se encaixe em cada cantinho da boca e finalmente... engole!"
-Quem é o imbecil que compara amor com sobremesa?
Fechei o livro revirando os olhos e puxando a respiração, jurei para mim mesma, que aquele fechado seria o ultimo romance que eu leria. Na verdade, eu nunca entendi muito bem qual é a intenção de fazer historias com mil e um obstáculos a serem vencidos, se todo mundo ja sabe que o final vai ser feliz. Tá, tá, eu ja sei que é pra dar emoção, mas eu gosto mesmo é de histórias realistas, aquelas sabe? Que nem sempre tudo dá certo, por que convenhamos, que história ruim mesmo é aquela em que no final os dois que se odiavam, terminam juntos e toda mulher comprometida fica grávida (entendeu, rede globo?).  
Minha reflexão sobre histórias foi interrompida pela minha cehgada em casa. Saí do carro, encontrando o jardineiro e ao entrar em casa, me deparo com a minha mãe num conjunto de ginástica azul bebê, falando numa voz aguda com o Snow, nosso puddle, e segundo ela, meu irmão. Ao subir as escadas vejo por uma fresta, no andar de baixo, um homem másculo, praticamente esculpido e jateado de suor, vestindo uma regata branca com pequenos rasgos e pingos de tinta azul. Ele parecia na verdade, um modelo vestido de pedreiro para uma sessão de fotos, mas analizando o tom de cansaço na sua voz e a exaustão escorrendo por cada voltinha de seus musculos, pude concluir, que aquela era mesmo a sua profssão: pedreiro. Ainda hipinotizada pela beleza angelical daquele humilde rapaz da classe c, desci uns dois degraus para observar qual seria o destino da criatura, até que o flagrei encontrando a minha mãe e de imediato colocando aquelas mãos calejadas na cintura dela e a mesma apoiando seus braços nos ombros do garoto.
-Desgraçada!
Não me culpo por insultar minha mãe em pensamento, não é de hoje que não nos damos bem. Levando em conta que ela é vinte anos mais nova que o meu pai, e mesmo sendo uma quarentona, acha que ta na flor da idade. Eles se casaram quando ela tinha 18 anos, ela é gaúcha e meu pai é Ingles, mas mora no Brasil há uns 30 anos. Meu pai sempre pertenceu a uma família rica, então analisando os fatos, eu concluí que eu fui nada mais nada menos que um golpe da barriga. Criativo, não? Mas independente de qual tenha sido a intenção da minha mãe em ter casado , ela não pode sair simplesmente se atirando nos braços do primeiro pedreiro gostosão que bate aqui em casa, meu pai não merece isso! Falando nisso, eu e meu pai sempre tivemos uma relação mais que amigável, foi ele quem me ensinou tudo sobre a vida, desde como amarrar o tênis até como fazer sexo seguro (apesar de que essa parte, eu preferia ter aprendido sozinha). É logico, que ele não está mais na fase de sair pra dançar, ou praticar esportes radicais, então a minha mãe se aproveita dos sessenta  do meu pai para sair catando dois de trinta, ou quatro de quinze, vai saber.
Não acreditando no que eu tava vendo, fui supreendida agachada na escada, por uma figura negra, toda de branco que descia, a Gorete. Essa sim era minha mãe. Me criou e literalmente limpou minhas fraldas. Gorete não estava com a melhor expressão, e ao ver que eu tinha a notado, praticamente cuspiu as palavras: 
-Precisamos conversar!


Ass: Nathália Coelho

Numa Noite Qualquer



III          Eu sei que não deveria começar assim, mas me é desejoso e assim o farei. Foi numa tarde qualquer, mal consigo recordar quando. Não faz muito tempo, disso posso ter certeza. O escritório estava cheio. Eu, sentado na confortável poltrona, lendo o jornal, observando a porta sorrateiramente detrás de minha grande mesa. Ayira fechando as persianas, após servir-me um bom café. Mirela sentada no confortável sofá, localizado de fronte a parede oposta a qual minha mesa prendia-se, observando à estante – recheada de livros – enquanto apreciava um bom café qual só Ayira sabia fazer. Meus olhos fecharam-se, pesadamente.

II          Meus olhos abriam fugazes, vagarosos. Mirela adentrava a sala com uma proposta de um novo caso, sem hesitar já estava de pé, apesar de sentir meu corpo extremamente pesado – toda minha movimentação continuava indiferente de tudo que havia vivido até ali. Corremos até o cemitério e lá estavam os dois, no mesmo local, sob a mesma chuva, parecia ser uma recapitulação de novela. Eu odeio repetir o passado.

I           A cena a qual me refiro trata-se de quando encontrei Ayira. Vagava pelo cemitério, solitário, incompreensivo, buscando alguma sorte de conversa para a noite sem fim e lá a encontrei. Dezessete anos, ajoelhada, chorava tanto que a chuva perdia em quantia para suas lágrimas. Com nenhum esforço repousei a destra pouco abaixo de minha cintura, sutilmente inclinada, cobrindo a garota com meu guarda-chuva. Tão jovem, tão amorável, tão bonita, virou-se para mim, ergueu-se e abraçou-me nos deixando vulneráveis à água fria que os céus derramavam. Abracei-a em resposta. Não haveria mais limites para nossa cumplicidade, vós logo sabereis. Retornamos para meu apartamento, imediatamente acima do escritório, dei-lha banho quente e um roupão qual serviria de vestuário pela noite. Meu primeiro erro. Nosso primeiro erro.

II          A chuva torrencial fazia daquela cena uma recordação triste. Eu vi a tristeza gritando do fundo da alma de Ayira, rugindo contra sua própria vida. Seus tão amados progenitores, agora transmutados em monstruosidades, aberrações quais destruiriam a vida humana. Eu não sei se deveria me importar com isso, realmente. Eu os matei. Ayira insistiu, meteu-se em meu caminho, recebeu um pequeno corte no braço, não havia preocupações. Ela viu seus pais mortos por minhas mãos, imagino sua dor, apesar de ser incapaz de me recordar dos tempos em que eu também guardava emoções humanas. Milena salvou-me da fúria angustiante de minha jovem cúmplice.

I           Minha consciência me atacou constantemente naquela fria noite. Sentamo-nos em minha cama, Ayira apoiou sua cabeça em meu ombro, enquanto eu tratava de saborear um bom vinho. Nunca me esqueci da pergunta que ela me fez. Aquela porcaria ainda martela meu crânio. Quiçá martelará para sempre, não bem sei. Por que ela havia de desejar tanto? Eu nunca desejei a eternidade, mas naquele exato momento... Eu adoraria que a vida durasse para sempre.

II          Eu continuei olhando, estarrecido, paralisado. Ayira correu e desapareceu no horizonte dos nossos olhares. Chorava tanto quanto, ou mais que a primeira vez. A vida pode ser muito sombria. Voltamos para o escritório, apenas eu e Milena. O escritório ficou silencioso. Silêncio de uma gravidade tão pesada e sufocante que mal conseguia ficar sentado. Noite após noite corremos atrás dela, encontrando apenas as vítimas de sua loucura, drenadas de seu fluido carmesim pelos pequenos furos característicos no pescoço. Eu não sabia o que fazer. Eu nunca soube, nunca estive preparado para isso. Evitava pensar que repetiria o erro de quem me fez assim. Talvez eu realmente tivesse de matá-la. Sentia meu corpo levemente suado.

I           Na mesma semana ela já me servia seu ótimo café, dizia que aprendera com a mãe. Faz sentido, considerando o delicioso sabor. Sempre sorridente, estudava à tarde. Morava comigo, pela falta de casa e tutela. Nunca fui um bom exemplo, de qualquer forma. Concedido a vida eterna, na escuridão infinda da noite, devorando a essência vital dos humanos, eu não havia de ser um bom tutor. Raynar tornou-me assim, não gostaria de ver minha jovem companheira também uma criatura das trevas tal qual eu. Assim foi. Raynar apareceu numa noite de neve e muito vento, seqüestrou Ayira e a manteve em cativeiro na igreja aonde fizemos nossa única festa... Festa? Banho de sangue. Meu antigo mestre e amante tratou de ferir gravemente o objeto de minha proteção e afeto. Sem opções em mãos, vendo o sorriso dela com lágrimas nos meus olhos, desta vez, tornei-a igual a mim ou ao demônio santificado que me criou. Não! Ela é melhor que ele. Centenas de vezes.

II          Encontramo-nos na floresta que cerca a maldita igreja. Ayira, agora dominada por seus instintos, gargalhava de meu comportamento protetor dos humanos, mal sabia ela que fora essa “fraqueza” que a permitiu sobreviver. Lutamos. Ela matou Milena impiedosamente, sem hesitar por só um momento. Deu cabo do corpo com muita facilidade e absorveu suas capacidades, aprendeu bem nas silenciosas noites de caçada àqueles quais não podem viver na superfície. Todavia, estou no ramo há mais tempo, perfurei o torso dela com minha espada. Um último espirro de sangue e...

III          Abri os olhos, suando um pouco, dormi em minha confortável poltrona, enquanto Ayira questionava-me com seus olhos curiosos e sua beleza infinita. Milena já havia ido embora há muito, foi um dia tão tranqüilo que pude dormir sem perceber. Tomei um bom banho, ela me imitou. Deitamos nossos corpos imortais lado a lado. Encarou-me profundamente e proferiu a mesma questão da primeira vez. Em diferenciação, escutou, agora, o que gostaria de ter escutado cinco meses antes.

 - Que tipo de relacionamento é o nosso? – Questionava a profundidade de minha alma com aqueles maravilhosos olhos azuis.

 - Somos amigos íntimos, não? – Respondi rapidamente.

 - Isso foi tão evasivo! – Fitava-me, indignada.

 - Não te arrependes? – Tomei as rédeas do discurso.

 - Estaria mentindo se concordasse, mas não é nada que eu não seja capaz de lidar e superar. Eu escolhi, conscientemente, partilhar a eternidade contigo. – Afirmou, com tom firme e determinado.

 - Vamos dormir. – Beijei sua testa suavemente e cobri nossos corpos.

Ass.: Igor Livramento

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Confissões de um escritor


Boa tarde leitores! Bom, aqui começo eu com nosso diário...




 A RESPOSTA DO POR QUE 


 Eu sempre quis ser uma escritora de sucesso. Sempre achei que o sucesso e fama como escritor vinham de um esforço tão pessoal, que fazer alguém entender era um dom. Essa conclusão, sempre me fez querer conquistar tudo isso. As coisas bonitas do mundo sempre me inspiram a criar um pensamento. Em algum momento de minha vida, as coisas más do mundo também me mostraram que era possível fazer do ruim algo bom para a mente humana. As palavras sempre me deixaram com medo. Às vezes tão pequenas e aparentemente simples, mas por trás... Sempre com um significado que te faz retorcer a alma em busca de respostas. Acho que justamente por isso sempre amei tanto escrever. Ser desafiada por atos de orgulho humano é nojento, mas ser desafiada por algo que dê significado ao mundo é emocionante. Quando era mais nova, eu não entendia o porquê de muitas pessoas não conseguirem olhar para um papel em branco e uma caneta em suas mãos. Achava que tinha algo relacionado à vocação. Hoje, penso diferente. O medo das pessoas de escrever está relacionado ao medo de saber o que se passa dentro de si mesmo. O grande medo da descoberta. Isso impossibilita a humanidade de escrever. É mais cômodo fechar os olhos para tudo que se sente, seja vindo da imaginação, seja um fato real. Não importa. O que você escreve, você deseja, possui, sonha, ou quer muito longe de você. As palavras transmitem algum sentimento, e é isso que a humanidade não quer ver. Os sentimentos estão em obscuro, cada vez mais. A mente de um escritor é um turbilhão constante. Cada momento que presencia se transforma em constantes histórias, que passam como um flash, daqueles que dizem que se projeta na mente do quase morto antes de morrer, em uma velocidade parecida com a da luz. É preciso moldar. Tudo que existe no mundo pode se transformar em palavras que se tornem uma reflexão, que se torne uma escrita digna. Mas é preciso tempo e paciência. No inicio é difícil lidar, a emoção toma conta do seu ser e sua vontade de descarregar, como um pendrive em um computador, todas as suas idéias no papel. Só o tempo permite que a seleção de palavras e de sentimentos entre em um consenso. Eu admiro um escritor por qualidades que seria impossível enumerar, mas principalmente, pela atitude de mostrar ao mundo seus pensamentos e idéias, que ninguém pode saber, e nunca saberia, se sua mão nervosa não se tornasse o instrumento.


Ass: Beatriz Sá -> www.simplesopinioes.blog.com

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O início





Boa noite leitores!


Finalmente, estou iniciando esse projeto que vem rondando minha cabeça por tempos. Ter a oportunidade de dividir um lugar com pessoas que amam o mesmo que eu, e se sentem tão privilegiados quanto eu, é um sonho importante, que eu vejo no futuro como algo que abriu caminhos, tirou fronteiras, furou obstáculos.
Hoje abro esse blog, formando um projeto que contará com textos de jovens escritores, assim como eu, engatinhando ainda na arte de escrever. Teremos um diário, expressando nossos sentimentos em relação a nossa escrita, com histórias, reflexões... Algo tão particular, tão complexo, em que mostraremos aqui, com o intuito vitorioso de que vocês, leitores, desvendem.
Conto com a ajuda de todos, para que levem esse projeto aos ouvidos a fora.
Agradeço desde já, todos os que aqui estarão comigo, dia após dia, montando nosso diário de momentos e pensamentos, que ficaram imortalizados nestas páginas. Abaixo de cada texto, terá a assinatura do respectivo escritor, para que também todos possam se conhecer juntamente com o endereço do seu blog pessoal, se existir.
Também temos twitter @jovem_escritor
Então, sejam todos bem-vindos ao nosso diário! Entrem, e fiquem a vontade!


Ass: Beatriz Sá