Querida Luz,
Estou com medo, um pouco sem forças também. Sinto uma espécie de frio interior que não passa com cobertas, nem casacos, nem nada quente que eu possa imaginar. É estranho, eu não sei bem o que pensar. Tantas coisas se passam em minha mente, lembro de momentos de quando eu era bebê! Isso não é louco? Pensei que eu não tinha essa capacidade, mas parece que minha memória está a fim de relembrar as coisas. Eu realmente vivi uma vida boa, querida.
Lembro-me agora das folhas que eu pegava pelas ruas do antigo bairro em que eu morava... Eu era tão criança! Tão pequeno! Tão sonhador... Lembro da primeira garota que eu me apaixonei. Era engraçado! Uma sensação de poder! O suor escorria pelas minhas mãos quando eu a avistava de longe chegando ao colégio. Meu coração parecia um carro sem freio. Minha alma gelava, mas eu me sentia quente! Doce primeiro amor... Lembro-me com mais intensidade do meu segundo amor, porém eterno. Margarida! A mulher de minha vida... Com ela, além de eu sentir essas coisas do primeiro amor, eu sentia uma ternura, uma vontade louca de guardá-la em algum lugar e apreciá-la toda noite, como se fosse uma boneca que eu cuidava carinhosamente.
Com ela descobri o que era amar, o que era se apaixonar, o que era crescer nessa vida. Formei uma família, tive lindos filhos, netos, bisnetos... Infelizmente, eu há vi partir. Algo que eu não gostava de imaginar. Não consigo descrever o que senti naquele momento. Foi algo ensurdecedor. Uma voz gritando em meus ouvidos! Era a voz da dor. Uma parte de mim se foi com minha Margarida. A minha metade partiu junto a ela. Mas eu continuei nesse mundo, e vi mais um neto nosso nascer. Sentia ela ao meu lado, chorando, emocionada pela glorificação da nossa família...
Eu sempre fui um homem trabalhador, não sei como, mas consegui dar o que prometi a minha mulher, e meus filhos. Aquela família feliz! Tão feliz... Claro, brigas aconteceram como em qualquer família... Mas sempre o amor falava mais alto.
Agora, eu sinto o cheiro das laranjeiras do meu jardim quando era menino, sinto o cheiro da chuva vindo, sinto o gosto dela molhando os gramados...
Agora me lembro do meu casamento, da minha doce lua de mel... Lembro do nascimento de Violeta, nossa primeira filha. Sinto uma lágrima correr pelo meu rosto. E um sorriso se abrir nos meus olhos. Isso é louco! Ó céus!
Sinto a mão de alguém na minha mão. Sinto o beijo de alguém no meu rosto. Sinto a presença dos meus filhos...
Sinto-me fraco, mais fraco...
Sinto-me feliz! Com uma vida completa.
Tudo bem, querida Luz, eu estou entendendo... Sei que já cumpri meu tempo, e formei meu legado.
Eu vejo! Vejo alguém agora vindo em minha direção, alguém pura, com um vestido vermelho, e uma aparência serena. Ah! É meu amor... Minha Margarida! Sinto meu coração ficar mais fraco, e a mão dela chegar a minha mão. Como em um túnel louco vejo milhares de fotografias, da minha própria vida, passando diante do meu cérebro. Reconheço cada momento. Minha memória se permitindo sua última utilidade! Sinto a mão de Margarida na minha! Pouco sinto a mão que sentia antes em minha mão, e o beijo que sentia antes em meu rosto... Vida plena, doce vida.
Estou pronto. Leve-me, querida Luz.
Ass: Beatriz Sá

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